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VOCÊ s.a./OUTUBRO 1999 - Página 68
Como
vender bem o seu peixe

O que fazer (e o que não fazer) para se dar bem vendendo de tudo
- e até você mesmo!
Por Otávio
Rodrigues
O publicitário Washington Olivetto, que ganha um bom dinheiro
vendendo o peixe dos outros, acredita que o princípio básico
para convencer alguém é a franqueza total: "Cada vez mais
as pessoas estão em busca da verdade. Quanto mais verdadeiro
você for, mais chances você tem". E ele vai mais longe,
com uma dica de alto valor: "Para vender seu peixe,
comunique-se de maneira que as possíveis perguntas de seu
interlocutor já estejam respondidas no seu discurso, na sua
apresentação. Não dê brechas para dúvidas ou antagonismos.
Porque, quando surgem essas perguntas por parte do comprador...
bem, suas respostas ficam parecendo desculpas arrumadas na
hora".
A mesa de Olivetto, presidente da agência W/Brasil, de São
Paulo, é uma frenética pista de pouso de idéias, projetos,
propostas, currículos e cartas de apresentação. E, não raro,
vira um laboratório do comportamento humano, algo muito útil
para quem quer aprender o derrapante caminho das pedras. Veja
este caso exemplar. Anos atrás, durante um mês, ele recebeu
bilhetinhos e presentes enigmáticos, entre eles até um aquário
com dois peixinhos. A assinatura era sempre a mesma: "Carla
e Carla vêm aí, Carla e Carla vêm aí..." E de fato
vieram: duas moças tentando um estágio na premiadíssima
W/Brasil: "Eu achei criativa a abordagem delas, que agiam
sempre em dupla, mas expliquei que nosso programa de
estagiários, naquele momento, só poderia absorver uma
pessoa", diz Olivetto. "E aí uma das duas pediu a
vaga, atropelando a outra na minha frente. Claro que eu fiquei
com a outra."
Afinal, como fisgar um comprador para seu peixe - ou parafuso,
serviço, idéia, projeto, proposta, um pedido de férias e até
você mesmo - sem cometer um engano oceânico como esse? Como
adotar o estilo dos grandes vendedores e publicitários para
falar de si próprio, sem cair em egoísmo, presunção e
arrogância?
Seu chefe mais imediato e também o chefe dele e toda a
empresa, enfim, compram você e o que você representa. Compram a
maneira como você executa seu trabalho, sua disponibilidade para
desafios, o jeito com o qual se relaciona com seus colegas, o
modo de se vestir e, em certa medida, até a maneira como você
senta ou toma café. Tudo acaba colaborando na produção da
imagem que fazem de você.
Uma resposta bem franca à questão de como vender seu peixe
é: com talento. Algumas pessoas trazem essa virtude do berço e
vendem o que querem, aparentemente sem fazer força. Mas qualquer
um pode assimilar as práticas desses campeões de persuasão e
melhorar o desempenho. Estas são as mais correntes:
Conheça
bem seu peixe
Seu produto tem pontos fortes e fracos e você deve ser o
primeiro a reconhecê-los. É a partir daí, inclusive, que muita
gente consegue descobrir onde está o futuro comprador,
economizando um bocado de tempo. Antecipar-se às perguntas ou
mesmo às críticas que podem vir do lado de lá, como sugere
Washington Olivetto, é uma das maneiras de enxergar seu produto
de uma maneira nova e reveladora.
Carlos
Villi, 35 anos, superintendente de marketing da Hering
(a consagrada marca dos dois peixinhos, por sinal), participou da
revisão que acabou mudando os rumos da empresa nos últimos
anos. E bastou olhar para o próprio umbigo: "Descobrimos
que a marca tinha força para ir além das camisetas e tornar-se
marca de vestuário completo. Antes, tínhamos um produto
extremamente popular e hoje estamos até nos shopping centers.
Conseguimos manter os velhos consumidores e conquistamos outros,
mais jovens".
Identifique
o comprador
Quando você sabe para quem deve vender, as coisas ficam muito
mais fáceis. Estude, pesquise, investigue, consiga o máximo de
informações que puder a respeito do comprador de seu peixe.
Considere suas necessidades, seus recursos, os gostos
particulares e as reações mais comuns nos momentos de decisão.
J. C. Penney, fundador de uma das mais bem-sucedidas e famosas
redes de lojas dos Estados Unidos, era o típico comprador de
talentos parada-dura. Quando alguém em busca de uma oportunidade
o procurava, ele descrevia as piores condições de trabalho que
conseguia imaginar. Falava em horas e horas de labuta diária,
salário baixo e comentava a respeito de vagas numa cidadezinha
bem longe. Se nesse momento o candidato gaguejasse ou viesse com
evasivas, a chance de trabalhar nas lojas J.C. Penney ia por
água abaixo. Na cabeça desse habilidoso empreendedor, quem não
soubesse vender a si mesmo não poderia vender qualquer outra
coisa.
Escolha a hora certa
Senso de oportunidade é um talento primordial, que mistura
doses variáveis de ciência e intuição. Em 1960, os executivos
da Xerox, que era então apenas uma empresa emergente, estavam
convictos de que o modelo 914 - marco divisor na história das
copiadoras - era muito mais prático e simples do que os
concorrentes. Para que isso ficasse bem claro, eles fizeram
barulho apresentando o peixe deles na Central Station de Nova
York, um dos lugares mais movimentados da cidade. Em 1961, 10 mil
dessas copiadoras já haviam sido instaladas, dobrando o
faturamento da empresa em apenas dois anos.
Se você não tem uma Xerox 914 para oferecer e se o dia-a-dia
no seu local de trabalho nem de longe lembra a Central Station,
é melhor ser mais sutil. Interromper a rotina de um chefe quando
ele está de pavio curto pode atrair um sonoro "não"
à sua proposta.
Fale a verdade
Não enrole, não enrole, não enrole: apresente seu peixe sem
disfarces. Esse era um dos segredos de Richard Sears, que no
começo do século espalhou folhetos de suas lojas por toda a
América: "Jamais faço propaganda enganosa. A honestidade
é a melhor política. Eu sei. Já experimentei os dois
jeitos". Isso estava também no refrão do primeiro sucesso
do grupo Cidade Negra, que surgiu na Baixada Fluminense, vendeu
seu peixe sincero para uma multinacional e virou um sucesso de
quase 2 milhões de discos vendidos: "Estamos aí, para o
que der e vier, a fim de saber a verdadeira verdade..."
Seja
breve
Enxugue seu discurso, busque a síntese e descobrirá o que
vale e o que não vale a pena em seu produto. Milo O. Frank,
autor de Como Apresentar Suas Idéias em 30 Segundos ou Menos
(Editora Record), vai direto ao ponto. Para ele, "o futuro
é um carro sem motorista. Temos de planejar e decidir, antes que
alguém (ou a vida) faça essas coisas em nosso lugar". E
então vende o peixe dele: "A mensagem de 30 segundos pode
instalar você no banco do motorista". Observe os anúncios
da TV e do rádio: quanto tempo eles levam para vender o peixe?
Muito simples: 30 segundos.
Vista-se de acordo
Há alguns anos, pesquisadores americanos submeteram um grupo
de jovens à condição de pedintes de luxo numa estação de
metrô. No primeiro dia, os rapazes vestiram-se normalmente e,
abordando as pessoas, arrecadaram uma certa quantia. No dia
seguinte, fizeram a mesma coisa, só que usando camisa social e
gravata. E conseguiram três vezes mais dinheiro. Traduzindo: é
duro admitir, mas é preciso ter um peixe fora do comum, uma
oportunidade explosiva nas mãos, para que alguém, do lado de
lá, negligencie o valor de sua boa aparência.
Venda e compre
Quem sabe vender seu peixe sabe também comprar o do outro. O
americano Ronald Shapiro defende uma teoria dessas já no título
de seu livro, The Power of Nice - How to Negociate so Everyone
Wins - Especially You! (que, mais ou menos, quer dizer: O Poder
da Amabilidade - Como Negociar de Maneira que Todos Ganhem -
Especialmente Você!) Ele e muita gente chamam isso de win-win
(ou ganha-ganha). O segredo é valorizar os interesses do outro
lado, de maneira a fortalecê-lo e poder sempre contar com sua
parceria em bons negócios.
Saiba recuar
Está na milenar autoridade do general chinês Sun-Tzu
(400-320 a.C.), autor de A Arte da Guerra: "Para ser
vitorioso, é preciso saber quando convém combater e quando
convém bater em retirada". Porque, se seguindo todas as
pistas para vender seu peixe, ainda assim as coisas não derem
certo, é preciso fazer um recuo estratégico. Reveja os
procedimentos, reorganize-se e descubra caminhos diferentes para
alcançar seu objetivo. Insistir numa batalha que já está
perdida pode colocar em risco o sucesso de toda uma guerra.
Crie seu network
Uma boa rede de relações é fundamental. São esses amigos,
colegas ou colaboradores que trocarão informações importantes
com você e, provavelmente, serão eles também que comprarão
seu peixe ou o indicarão para um bom comprador. Espalhe cartões
de visita, responda a e-mails, ligue no dia do aniversário,
agradeça pelos convites mesmo quando não puder comparecer.
Faça tudo para despertar o interesse de prováveis compradores.
Ou eles acabam levando o peixe da barraca do lado.
Seja simpático
Auto-conhecimento é muito importante para definir limites de
comportamento e apresentação. Mesuras demais, piadas fora de
hora ou exageros de atitude podem fazer seus tiros sair pela
culatra. Indo direto ao ponto, cuidado para não se tornar um
chato de galocha: ninguém lembra de alguém assim na hora de
comprar um peixe.
Mantenha sigilo
Essa é velha, mas ainda não caducou: o segredo é a alma do
negócio. Claro, não precisa levar ao pé da letra. Gerencie
exceções, de forma a incluir colaboradores estratégicos em
seus planos, mas lembre-se de que uma informação pode valer
ouro. Os melhores negociadores falam muito a respeito da
capacidade de surpreender um possível comprador. Portanto,
quanto mais previsíveis forem suas atitudes, menores serão suas
chances de conseguir o tão desejado sim do lado de lá.
Como é fácil descobrir, regras gerais de compra e venda,
oferta e procura, altas e baixas de mercado continuam em voga e
realmente funcionam, seja para produtos ou para talentos humanos.
Dá para aprender bastante se fizermos comparações entre a
embalagem de um produto e a roupa que vestimos. Ou a forma de
exposição do produto comparada à nossa postura ou mesmo à
quantidade de vezes em que aparecemos nos lugares certos e na
hora certa - festas, reuniões, palestras, exposições, feiras
etc. Exporte o raciocínio para a chamada nova economia e seus
negócios virtuais, e a paridade continua: acessível, flexível,
interativo, aplicável, digital e on-line são termos que podem
(e têm sido mesmo) amplamente aplicados aos profissionais mais
valorizados hoje em dia. O engenheiro Maurício Fernandes, 32
anos, que comanda a Dedalus, empresa que vem cumprindo uma
trajetória relâmpago no mundo da integração de sistemas, usa
essas expressões reveladoras para explicar como e quando compra
um peixe: "Eu prefiro comprar no início do dia, quando
todos estão mais flexíveis e abertos para discutir. E tento
sempre envolver a pessoa na negociação, para trazer alguma
contrapartida, quando aplicável".
Peixe graúdo mesmo foi o que conseguiu vender Maura Aguinaga
Spielmann, em 1996, quando era gerente-geral financeira da
Philips do Brasil. Ela desenvolveu um projeto inovador que acabou
aprovado pelos diretores da empresa, no Brasil e na Holanda. A
idéia era tornar a gestão financeira mais eficiente em toda a
América do Sul, centralizando os processos nos escritórios de
São Paulo - até então, cada país fazia sua própria gestão.
Primeiro, ela desenvolveu as propostas e depois as atacou com
questionamentos: "Eu me perguntava o que essa forma de
organização traria de diferente, de eficiente, como ela poderia
aumentar a confiabilidade e reduzir os custos em comparação à
anterior". E imaginou, em detalhes, como fazer as coisas
acontecerem: "Tinha de ser um projeto com começo, meio e
fim. Era preciso planejar a operacionalização e pensar em todas
as suas implicações". No dia D, sua argumentação foi
perfeita: "Eu mostrei que seria mais dispendioso e ineficaz
mantermos especialistas em macroeconomia em cada um dos países
da América do Sul". E ela aproveitou um momento
extremamente oportuno para apresentar seu projeto: "Os fatos
mostravam que, se não fizéssemos a mudança, iríamos enfrentar
turbulências". O peixe da Maura, tão bem vendido, acabou
virando benchmark no gerenciamento das áreas financeiras de
várias multinacionais. E hoje ela é diretora financeira da
Philips na América do Sul.
Para José Augusto Minarelli, sócio da Lens & Minarelli,
empresa de outplacement (recolocação de executivos) e
aconselhamento de carreira, ensinar os outros a vender o peixe é
uma das maneiras que ele encontrou para vender o dele próprio.
Recentemente, Minarelli fez a centésima apresentação da
palestra "Como Vender seu Peixe", uma bem-humorada e
prática aula de marketing, promoção e venda de talentos
humanos. Com fluência verbal, gestos substanciosos e várias
anedotas, ele convence a audiência de que devemos agir
inteligentemente para nos promover, seja trabalhando numa empresa
ou por conta própria.
Na cartilha de Minarelli, o cartão de visita é um dos
maiores aliados de todo profissional: "Eu compareço a
congressos e encontros profissionais com bastante freqüência e
me predisponho a conhecer o maior número possível de pessoas,
para as quais sempre ofereço meu cartão. E fico impressionado
com a quantidade de gente que se desculpa comigo porque não tem
cartão, esqueceu ou trouxe em número insuficiente. Como elas
esperam vender o peixe delas?" Uma das discípulas de
Minarelli é Stefi Maerker, que dirige a SEC Secretary Search
& Training, empresa de consultoria e seleção de
secretárias: "Carrego cartão até no banheiro, porque o
Minarelli disse que até lá a gente pode encontrar
alguém". Faz todo sentido.
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