sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O GAROTO DO PROSTÍBULO

 



Reginaldo de Oliveira
Publicado no O Progresso  dia  02 / 10 / 2026 - OP032
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A pátria da corrupção vem, há um bom tempo, se desnudando frente ao mundo; mostrando suas mazelas, suas idiossincrasias, suas feiuras. Melhor dizendo, ela sempre esteve despida. A massa populacional mais adensada é que não enxergava o óbvio, ou então achava tudo muito natural, tipo, “política é assim mesmo”. Graças aos céus, o cidadão brasileiro comum já consegue perceber o efeito danoso da corrupção na péssima educação dos filhos, no trágico serviço de saúde, na calamitosa gestão da segurança pública, na destruição do país etc.

 

Aquele garotinho criado no prostíbulo encara tudo a sua volta com naturalidade absoluta; ele passa o dia brincando aqui e ali ou se distrai com uma coisa ou outra etc. No horário agitado de expediente ele dorme no quartinho dos fundos. Dessa forma, a vida vai passando, passando... Somente depois de bem crescido é que as circunstâncias se apresentam ao menino com uma nova coloração, com um novo significado. É como se de repente a cortina caísse revelando o cenário degradante em que vivia. Na realidade, o ambiente é o mesmo; o que mudou foi o olhar, a percepção, o juízo da coisa.

 

Nós, brasileiros, estamos no meio da travessia onde parte da cortina já despencou. Ou seja, começamos a enxergar características asquerosas naquilo que antes tratávamos com naturalidade. E até o objeto de observação já está incomodado com o nosso olhar de censor. Como bem disse o Cazuza: “Transformaram o país inteiro num puteiro porque assim se ganha muito dinheiro”. E por mais que os promotores da balbúrdia continuem tentando nos engabelar, seus velhos e eloquentes discursos agora soam como ridículos cacoetes. Portanto, cresce num ritmo acelerado o nojo e a repulsa do povo aos grandes ícones da nossa classe política. Daí, a razão do fenômeno bolsonarista, cuja fonte de exponencial crescimento esteve (ou ainda está) no desolador ambiente de desesperança que engoliu o país. O Bolsonaro explodiu o mundo político por causa da sua originalidade, que fez um contraste gritante com o ambiente dominado por figuras construídas numa fábrica de marqueteiros.     

 

Em meio à terra arrasada, em meio aos escombros da safadeza, os candidatos bradam seus velhos e puídos discursos de sempre, onde desfiam toscas peças de oratória na televisão, ao mesmo tempo em que manifestam um pesado semblante demagógico. É como se o orador tivesse uma protuberante verruga cabeluda bem na ponta do nariz. Nossa decepção e nossos espíritos escaldados já nos permite olhar as coisas dessa forma. Por isso é que o cidadão decente e atento aos jatos de lama que jorram do noticiário vive com o estômago revirado em face da podridão alastrada de norte a sul do país. Resta-nos então rezar para que muitas outras pessoas saiam da escuridão, principalmente os escravos do assistencialismo.

 

Pois é. Somos o garotinho crescido, já adulto, enojado com a casa onde fomos criados. O pior é que não temos pra onde ir; somos obrigados a conviver com tantas mazelas e feiuras à nossa volta. Isso não significa que o nosso destino foi selado pelos corruptos. A massa de trabalhadores honestos não pode deixar se abater por um grupo de malfeitores travestidos de agentes públicos. Se a podridão permanece entranhada em cada canto e em cada fenda do universo público, temos a obrigação de promover uma grande faxina nesse ambiente apodrecido, mesmo que o grau avançado de degradação não aponte nenhuma esperança de que um dia possamos viver num país civilizado. Talvez a tarefa possa não ser tão árdua. Os nossos políticos linha dura já demonstraram uma frouxidão vexatória quando são extremamente pressionados. Basta lembrar a radical mudança de tom do governador Geraldo Alckmin no momento em que a população foi pra rua em junho de 2013 com uma energia nunca imaginada.

 

Podemos mudar. Podemos botar toda a corja pra correr. Também, podemos exigir o efetivo funcionamento de várias instituições que só fazem de conta que trabalham. Portanto, vamos participar ativamente das reuniões de condomínio, vamos nos integrar à comunidade do nosso bairro, vamos monitorar o Portal da Transparência, vamos visitar as câmaras legislativas, vamos votar em candidatos ficha limpa. Curta e siga @doutorimposto. Outras centenas de artigos estão disponíveis no site www.next.cnt.br