Dona Fran é uma simpática costureira que atende seus clientes com um belo sorriso no rosto. Certa vez, eu levei uma calça para embainhar. Enquanto concluía o serviço, ela fez um comentário emblemático. Disse que um catador de recicláveis colocava areia nas latinhas amassadas para aumentar o peso e assim ganhar mais dinheiro. Dona Fran discorria sobre essa história com desenvoltura e certa admiração pela ideia genial do catador.
Se
quiser conhecer a alma dum país, basta prestar atenção nos seus políticos. O
sistema político sintetiza o caráter da nação. E o motivo é bem simples. Os
piores políticos brasileiros, por exemplo, não vieram do planeta marte nem das
profundezas do inferno; eles foram paridos das massas. O voto representa um
alinhamento de caráter com o votado. O político eleito, portanto, está em
perfeita sintonia com os valores daqueles que o elegeram. Trocando em miúdos,
cada eleitor faria exatamente aquilo que o empossado faz. É claro e óbvio que o
Seu João das Couves ou o pastor da igreja não seriam capazes de abominações características
do universo político. Será mesmo?
Será
que alguém que coloca areia nas latinhas também seria capaz de grandes desvios
se tivesse oportunidade? Será que a Dona Fran seguiria na mesma linha? Pois é. Quem
reclama da corrupção desenfreada é gente que acha normal, a prática de
“pequenos deslizes” (ou grandes). É mais ou menos assim: O macaco que segue
atrás critica o rabo do macaco que vai na frente. Curiosamente, acompanhamos
décadas e mais décadas de protestos contra a corrupção enquanto o sistema
corrupto crescia no mesmo período. Passamos o tempo todo vendo coisas lindas na
televisão sobre o espírito evoluído do brasileiro, mas basta alguns minutos na
internet para cair no abismo sombrio da realidade. A pantomima embusteira fica
mais evidente no furacão de escândalos recentes envolvendo o banco Master ou a
prisão do político fluminense Rodrigo Bacellar.
A
coisa toda chegou num nível de podridão avassaladora, indicando um completo
esfacelamento moral e institucional. E mesmo com o mundo desabando sobre nossas
cabeças, as forças motrizes da república insistem num discurso de normalidade.
Na verdade, as pessoas que habitam o setor público tentam empurrar o sapo da
conivência na garganta do povo. A mensagem é a seguinte: somos tão perversos
quanto você. Noutras palavras, o agente público mostra e prova que somente malfeitores
prevalecem nesse país, e que a honestidade não tem lugar em meio a tantos que
são maus.
Um
bom exemplo de completa deterioração social está no Rio de Janeiro. O
ex-governador Anthony Garotinho disse recentemente que “é difícil achar qual
órgão do Estado não tem corrupção”. Na verdade, ele pinta um quadro horripilante
de toda a estrutura pública fluminense; seus depoimentos a diversas mídias
digitais fazem Gotham City parecer um monastério.
Como
o mundo político é conduzido por criaturas arrepiantes, é preciso então buscar
ressonância no eleitor; é necessário deformar o espírito social. Por
consequência, o mosaico de personalidades tortuosas se transforma no laboratório
perfeito do político desonesto. Mesmo porque, a arte da política se traduz num
profundo conhecimento da alma do eleitor. O político moderno não precisa
envidar grandes esforços para convencer ninguém sobre contos de fadas. Esse
político sabe que seu eleitor tem alma bandida; boa parte da sociedade está
mais descarada, com pessoas abandonando estereótipos romantizados e assumindo
um comportamento pragmático. Afinal de contas, o mundo é dos espertos. E no
jogo da esperteza vale tudo. Quem ainda insiste na profissão de bondade aprende
no BBB que é preciso mentir, trapacear, agredir e passar por cima dos brothers
pra ganhar o jogo. O pior de tudo é que nesse caldo de ignomínias floresce a
nossa democracia representativa.









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