
Publicado no Jornal do Commercio dia 22 / 09 / 2026 - A519
Publicado no O Progresso dia 25 / 09 / 2026 - OP031
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O senhor João das Couves é um empresário famoso pela sua
conduta rigorosa e pelo respeito conquistado entre amigos e parceiros de
negócios. Clientes e fornecedores elogiam a postura dos seus funcionários e a
política de compliance interno. A coisa é tão séria que um gerente foi demitido
porque mentiu sobre cumprimento de prazo de entrega de mercadoria. Outro afastamento
aconteceu porque foi descoberto que o irmão de um funcionário já tinha sido
preso. O senhor João analisa o currículo de cada novo empregado antes de
contratar, com investigação detalhada de qualquer mínimo desvio de conduta. Há
um princípio de tolerância zero. Afinal de contas, a empresa tem um nome a
zelar.
O senhor João está apoiando e investindo bastante
dinheiro na campanha eleitoral, cujo beneficiário é um velho conhecido da
política local. A amizade entre os dois é visceral, com muitos cartazes de
propaganda espalhados pela loja e no bairro inteiro. Até o uniforme dos
funcionários foi transformado num cartaz ambulante. Junte-se ainda festas,
eventos, reuniões, campanhas, carreatas, num grude constante de um com o outro.
Pois é. O candidato beneficiário de tamanho investimento esteve envolvido num
esquema mirabolante de exploração sexual de adolescentes; acusações de estupro,
homicídios, tráfico, corrupção, subornos, fraudes em licitações, em que ficou
preso por 11 meses até ser solto num esquema de compra de sentença. Quando essa
ficha corrida é questionada, o senhor João sempre diz que seu candidato vai
defender os interesses da classe empresarial e ainda trazer desenvolvimento
econômico porque é muito forte em Brasília. Outros candidatos de ficha limpa
são fraquinhos e sem peso político. Sendo assim, não adianta eleger uma pessoa
apagada e cheia de pudores, já que nenhum homem honesto sobrevive na política.
O pragmatismo do senhor João enxerga o ambiente
político como um inevitável jogo de perversidades, onde os caminhos para
alcançar objetivos substanciosos passam por manobras ousadas e pela quebra da
ética. Na verdade, tantos ingredientes indigestos viram um caldo chamado de
jogo político que é capitaneado por brilhantes estrategistas. A massaroca
ricamente vitaminada com o histórico de ilustres personagens acaba inebriando muita
gente que sonha com o sucesso político. O senhor João se encanta com esse
universo dinâmico e recheado de peripécias.
Uma análise mais detalhada acaba mostrando que o
pragmatismo do senhor João não é o único motivo para apoiar um político
calhorda. Ele tem profunda admiração pelo seu patrocinado, não enxergando
comportamentos repreensíveis ou necessariamente condenáveis. Na cabeça do senhor
João, o mundo político está numa dimensão separada do cidadão comum. Nesse
multiverso impera um sistema bem diferente do moralismo congelante das pessoas ingênuas
e puritanas. O problema dessa visão deturpada está na violação do chamado
dualismo moral, em que bem e mal se apresentam como duas forças opostas que estão
em conflito permanente. Portanto, não é possível haver conciliação desses
extremos morais. Os países que insistem nesse paradigma deturpado acabam
implodindo.
A força das nações está nos padrões éticos e morais do
cidadão comum que repercute em várias instâncias da vida social, gerando
instituições sólidas e confiáveis. Por exemplo, um brasileiro residente nos EUA
contou que certa vez hasteou a bandeira do Brasil acima da bandeira americana.
O vizinho viu a cena e imediatamente reclamou que as posições deveriam se
inverter. O político americano é infinitamente mais cuidadoso que o brasileiro
porque atua dentro de limites bem definidos. Isso não significa que os EUA
estão livre de escândalos políticos, mas lá, a coisa não é tão avacalhada como
aqui, no Brasil.
O senhor João, como muitos líderes empresariais que justificam seus apoios políticos como necessários para defender interesses setoriais, acabam saindo do pragmatismo e descambando para o território da hipocrisia. Napoleão Bonaparte disse que na política o absurdo não é um obstáculo. Mas será mesmo que os comportamentos devem ser exageradamente desavergonhados? Será que somente os ingênuos acreditam na utopia de relações verdadeiramente éticas? Ou será que o mundo verdadeiro é aquele representado pelos fatos rocambolescos do Daniel Vorcaro & Cia. Ltda? Se esse é o mundo verdadeiro, então somos inevitavelmente uma nação de vagabundos hipócritas.






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