segunda-feira, 21 de setembro de 2026

O ABSURDO NÃO É UM OBSTÁCULO

 



Reginaldo de Oliveira
Publicado no Jornal do Commercio  dia  22 / 09 / 2026 - A519
Publicado no O Progresso  dia  25 / 09 / 2026 - OP031
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O senhor João das Couves é um empresário famoso pela sua conduta rigorosa e pelo respeito conquistado entre amigos e parceiros de negócios. Clientes e fornecedores elogiam a postura dos seus funcionários e a política de compliance interno. A coisa é tão séria que um gerente foi demitido porque mentiu sobre cumprimento de prazo de entrega de mercadoria. Outro afastamento aconteceu porque foi descoberto que o irmão de um funcionário já tinha sido preso. O senhor João analisa o currículo de cada novo empregado antes de contratar, com investigação detalhada de qualquer mínimo desvio de conduta. Há um princípio de tolerância zero. Afinal de contas, a empresa tem um nome a zelar.

 

O senhor João está apoiando e investindo bastante dinheiro na campanha eleitoral, cujo beneficiário é um velho conhecido da política local. A amizade entre os dois é visceral, com muitos cartazes de propaganda espalhados pela loja e no bairro inteiro. Até o uniforme dos funcionários foi transformado num cartaz ambulante. Junte-se ainda festas, eventos, reuniões, campanhas, carreatas, num grude constante de um com o outro.

Pois é. O candidato beneficiário de tamanho investimento esteve envolvido num esquema mirabolante de exploração sexual de adolescentes; acusações de estupro, homicídios, tráfico, corrupção, subornos, fraudes em licitações, em que ficou preso por 11 meses até ser solto num esquema de compra de sentença. Quando essa ficha corrida é questionada, o senhor João sempre diz que seu candidato vai defender os interesses da classe empresarial e ainda trazer desenvolvimento econômico porque é muito forte em Brasília. Outros candidatos de ficha limpa são fraquinhos e sem peso político. Sendo assim, não adianta eleger uma pessoa apagada e cheia de pudores, já que nenhum homem honesto sobrevive na política.

 

O pragmatismo do senhor João enxerga o ambiente político como um inevitável jogo de perversidades, onde os caminhos para alcançar objetivos substanciosos passam por manobras ousadas e pela quebra da ética. Na verdade, tantos ingredientes indigestos viram um caldo chamado de jogo político que é capitaneado por brilhantes estrategistas. A massaroca ricamente vitaminada com o histórico de ilustres personagens acaba inebriando muita gente que sonha com o sucesso político. O senhor João se encanta com esse universo dinâmico e recheado de peripécias.

 

Uma análise mais detalhada acaba mostrando que o pragmatismo do senhor João não é o único motivo para apoiar um político calhorda. Ele tem profunda admiração pelo seu patrocinado, não enxergando comportamentos repreensíveis ou necessariamente condenáveis. Na cabeça do senhor João, o mundo político está numa dimensão separada do cidadão comum. Nesse multiverso impera um sistema bem diferente do moralismo congelante das pessoas ingênuas e puritanas. O problema dessa visão deturpada está na violação do chamado dualismo moral, em que bem e mal se apresentam como duas forças opostas que estão em conflito permanente. Portanto, não é possível haver conciliação desses extremos morais. Os países que insistem nesse paradigma deturpado acabam implodindo.

 

A força das nações está nos padrões éticos e morais do cidadão comum que repercute em várias instâncias da vida social, gerando instituições sólidas e confiáveis. Por exemplo, um brasileiro residente nos EUA contou que certa vez hasteou a bandeira do Brasil acima da bandeira americana. O vizinho viu a cena e imediatamente reclamou que as posições deveriam se inverter. O político americano é infinitamente mais cuidadoso que o brasileiro porque atua dentro de limites bem definidos. Isso não significa que os EUA estão livre de escândalos políticos, mas lá, a coisa não é tão avacalhada como aqui, no Brasil.     

 

O senhor João, como muitos líderes empresariais que justificam seus apoios políticos como necessários para defender interesses setoriais, acabam saindo do pragmatismo e descambando para o território da hipocrisia. Napoleão Bonaparte disse que na política o absurdo não é um obstáculo. Mas será mesmo que os comportamentos devem ser exageradamente desavergonhados? Será que somente os ingênuos acreditam na utopia de relações verdadeiramente éticas? Ou será que o mundo verdadeiro é aquele representado pelos fatos rocambolescos do Daniel Vorcaro & Cia. Ltda? Se esse é o mundo verdadeiro, então somos inevitavelmente uma nação de vagabundos hipócritas.



















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