Reginaldo de Oliveira
Publicado no Jornal do Commercio AM 15/06/2011
Artigos publicados
A observância dos valores respeitados pela sociedade é um traço distintivo do bom profissional. A faculdade inata que cada um possui de distinguir o certo do errado é fundamental para a aceitação do indivíduo pelos grupos sociais. O desenvolvimento de capacidades perceptivas mais aguçadas que permitam a distinção de adequado e inadequado, conveniente e inconveniente, oportuno e inoportuno etc., amplia as possibilidades de influência nas atitudes das demais pessoas e cria oportunidades de ascensão profissional. Os holofotes estão permanentemente voltados para a nossa conduta profissional, o que nos faz lembrar de manter um cuidado zeloso da imagem que projetamos àqueles com quem interagimos cotidianamente.
A característica quase que onisciente da sociedade pressiona o indivíduo de forma implacável e o obriga a pautar suas atitudes segundo a cartilha determinada pelos costumes vigentes. Violar regras cristalizadas por longos períodos de adequações morais é arriscar-se ao ostracismo social. Por isso, qualquer ato de ousadia deve ser muito bem calculado. O dramaturgo irlandês Bernard Shaw disse que o progresso depende dos insensatos, visto que o homem sensato não viola regra nenhuma e assim nada cria. Essa infeliz verdade é um grande desafio para quem se dispõe a romper a bolha da mediocridade e, consequentemente vir a ser soterrado por uma avalanche de críticas. Somente os muito fortes costumam sobreviver. Outros tantos naufragam por se atreverem a dizer verdades inconvenientes. Por esse motivo é que enormes quantias de dinheiro são despendidas com serviços de consultorias que são contratadas para dizer aquilo que os empregados não têm coragem de falar.
O ambiente corporativo é um caldeirão de regras, comportamentos e sentimentos de tudo quanto é tipo que borbulham o tempo todo sob enorme pressão. Quanto maior a estrutura, maior a complexidade e mais difícil a manutenção do clima organizacional em níveis adequados de harmonia e estabilidade. Por isso, as empresas devem monitorar tais fenômenos comportamentais e desenvolver estratégias positivas de ação. A formalização de um código interno de ética e conduta profissional é a solução encontrada por muitas entidades para uniformizar um conjunto de valores e práticas consideradas adequadas para o bem-estar de todos, proteção dos ativos tangíveis e intangíveis e garantia de perenidade.
Curiosamente, o cidadão de boa fé e de bom senso é capaz de obedecer a volumosos códigos de conduta sem nunca os ter lido. Mesmo assim tais códigos são válidos e extremamente importantes quando se apresentam como balizadores de dilemas éticos aparentemente triviais como, por exemplo, favores ou presentes envolvendo agentes externos. Na ausência de formalização de regras de conduta, o profissional deve ficar atento às armadilhas embutidas nas boas intenções de quem quer que seja. O desconfiômetro deve está sempre sintonizado até mesmo com as sutilezas de gestos amistosos ou sorrisos espontâneos.
Esse estado de coisas não obriga necessariamente a adoção da paranóia como um traço expressivo da personalidade. Cordialidade, respeito ao próximo e compromisso com a qualidade profissional são atributos mais do que suficientes, não havendo necessidade de envolvimento e intimidade com colegas de trabalho. Dessa forma, é possível manter níveis adequados de conforto moral necessários ao bom desempenho das atividades e responsabilidades de cada um.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
CONDUTA PROFISSIONAL
Sou Contador e Professor do Ensino Superior. Sou apaixonado pela desconstrução das interpretações do mundo.
Esse blog é dedicado aos meus artigos publicados no Jornal do Commercio e na Revista Editor Fiscal.
terça-feira, 7 de junho de 2011
ERROS, FRAUDES E AUDITORIA
Reginaldo de Oliveira
@ucara
Publicado no Jornal do Commercio AM 07/06/2011
Artigos publicados
Não é difícil encontrar administradores consumidos por preocupações relacionadas ao controle interno das suas operações. As áreas sensíveis como os setores de compras, financeiro, RH e TI são mais propensas a incorrer em diversos tipos de irregularidades, seja por dolo ou culpa. Erros decorrentes de negligência ou despreparo são menos danosos para o clima organizacional. A fraude, por conseguinte, possui uma carga de alto potencial destrutivo, visto que a extensão dos estragos vai além da usurpação de bens patrimoniais. E seu efeito negativo leva tempo, muito tempo para se dissipar.
Os erros acontecem de forma involuntária, seja por desatenção, inobservância de procedimentos internos ou falta de conhecimento técnico adequado para execução de tarefas etc. O empregado pode também ser induzido ao erro quando é mal orientado por seus superiores ou quando a estrutura organizacional é capenga e os processos internos não são mapeados. Quando diretores e gerentes tropeçam nas próprias pernas ou se aventuram em péssimos negócios não é de se estranhar que o restante da hierarquia faça o mesmo. O ranço da incompetência costuma escorrer de cima para baixo contaminando o que encontra pelo caminho. Portanto, se os sinais de incompetência são visíveis em tudo quanto é área da empresa, é provável que a coisa lá em cima seja muito feia.
A fraude é revestida de um caráter perverso. Quando alguém faz esse tipo de coisa numa organização acaba prejudicando todo mundo. Prejudica diretamente o proprietário do patrimônio lesado e marca negativamente os demais. Há casos traumáticos que mudam a empresa para sempre: patrões justos se tornam carrascos paranóicos e funcionários amistosos passam a desconfiar da própria sombra. A fraude se manifesta de formas diversas, seja pela falsificação de documentos ou registro de transações fictícias, dentre outras. A NBC T-12, aprovada pelo Conselho Federal de Contabilidade, contém a seguinte definição: “O termo ‘fraude’ aplica-se a atos voluntários de omissão e manipulação de transações e operações, adulteração de documentos, registros, relatórios e demonstrações contábeis, tanto em termos físicos quanto monetários”.
A existência de um ambiente organizacional complexo justifica a implementação de políticas que visem à proteção do patrimônio. A auditoria (interna e independente) se apresenta como um necessário e oportuno instrumento de prevenção de riscos patrimoniais. Dependendo da complexidade e do volume de operações de uma organização, a auditoria interna se torna imprescindível para identificar fraudes no seu nascedouro. É obvio que procedimentos de auditoria interna só serão eficazes num ambiente regido por normas e procedimentos bem estruturados. Caso contrário, o trabalho do auditor produzirá mais atrito do que resultados práticos.
É bom lembrar que existem pessoas excepcionalmente habilidosas na utilização de premissas verdadeiras que resultam em conclusões sofismáticas. Esse pessoal conhece os entremeios da burocracia operacional e sabe exatamente onde estão os pontos frágeis. Também, costuma se opor a qualquer idéia relacionada ao assunto auditoria. Por esses e outros motivos é que o auditor deve reunir qualidades incomuns e ter faro bem apurado.
@ucara
Publicado no Jornal do Commercio AM 07/06/2011
Artigos publicados
Não é difícil encontrar administradores consumidos por preocupações relacionadas ao controle interno das suas operações. As áreas sensíveis como os setores de compras, financeiro, RH e TI são mais propensas a incorrer em diversos tipos de irregularidades, seja por dolo ou culpa. Erros decorrentes de negligência ou despreparo são menos danosos para o clima organizacional. A fraude, por conseguinte, possui uma carga de alto potencial destrutivo, visto que a extensão dos estragos vai além da usurpação de bens patrimoniais. E seu efeito negativo leva tempo, muito tempo para se dissipar.
Os erros acontecem de forma involuntária, seja por desatenção, inobservância de procedimentos internos ou falta de conhecimento técnico adequado para execução de tarefas etc. O empregado pode também ser induzido ao erro quando é mal orientado por seus superiores ou quando a estrutura organizacional é capenga e os processos internos não são mapeados. Quando diretores e gerentes tropeçam nas próprias pernas ou se aventuram em péssimos negócios não é de se estranhar que o restante da hierarquia faça o mesmo. O ranço da incompetência costuma escorrer de cima para baixo contaminando o que encontra pelo caminho. Portanto, se os sinais de incompetência são visíveis em tudo quanto é área da empresa, é provável que a coisa lá em cima seja muito feia.
A fraude é revestida de um caráter perverso. Quando alguém faz esse tipo de coisa numa organização acaba prejudicando todo mundo. Prejudica diretamente o proprietário do patrimônio lesado e marca negativamente os demais. Há casos traumáticos que mudam a empresa para sempre: patrões justos se tornam carrascos paranóicos e funcionários amistosos passam a desconfiar da própria sombra. A fraude se manifesta de formas diversas, seja pela falsificação de documentos ou registro de transações fictícias, dentre outras. A NBC T-12, aprovada pelo Conselho Federal de Contabilidade, contém a seguinte definição: “O termo ‘fraude’ aplica-se a atos voluntários de omissão e manipulação de transações e operações, adulteração de documentos, registros, relatórios e demonstrações contábeis, tanto em termos físicos quanto monetários”.
A existência de um ambiente organizacional complexo justifica a implementação de políticas que visem à proteção do patrimônio. A auditoria (interna e independente) se apresenta como um necessário e oportuno instrumento de prevenção de riscos patrimoniais. Dependendo da complexidade e do volume de operações de uma organização, a auditoria interna se torna imprescindível para identificar fraudes no seu nascedouro. É obvio que procedimentos de auditoria interna só serão eficazes num ambiente regido por normas e procedimentos bem estruturados. Caso contrário, o trabalho do auditor produzirá mais atrito do que resultados práticos.
É bom lembrar que existem pessoas excepcionalmente habilidosas na utilização de premissas verdadeiras que resultam em conclusões sofismáticas. Esse pessoal conhece os entremeios da burocracia operacional e sabe exatamente onde estão os pontos frágeis. Também, costuma se opor a qualquer idéia relacionada ao assunto auditoria. Por esses e outros motivos é que o auditor deve reunir qualidades incomuns e ter faro bem apurado.
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fragilidade operacional,
fraudes
Sou Contador e Professor do Ensino Superior. Sou apaixonado pela desconstrução das interpretações do mundo.
Esse blog é dedicado aos meus artigos publicados no Jornal do Commercio e na Revista Editor Fiscal.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
ADMINISTRAÇÃO DO CONSENSO
Reginaldo de Oliveira
@ucara
Publicado no Jornal do Commercio AM 31/05/2011
Artigos publicados
Fato corriqueiro é a prática de reuniões para tratar de assuntos relevantes, como por exemplo, a busca de solução de impasses quando todas as alternativas se mostram ruins. Há empresas que são viciadas em exaustivas e improdutivas reuniões, as quais são muitas vezes comandadas pelo chefe maior. De modo geral, os trabalhos são iniciados pela abordagem dos itens da pauta, donde ponto a ponto os assuntos vão sendo discutidos e analisados por diversos pontos de vista. Dessa forma espera-se que a matéria seja estratificada ao ponto de permitir a eliminação das possibilidades de uma decisão errada. Ledo engano. Infelizmente, a lógica racional é um ente arisco e volátil que só existe no terreno conceitual. A verdade é que somos criaturas impulsivas, parciais e egoístas. Ou seja, a nossa lógica é envolvida por outros sentimentos numa espécie de fagocitose. Daí, o risco da “análise dos diversos pontos de vista” não ser feita com sinceridade.
De modo subliminar, o que acontece nas reuniões é a imposição ao grupo de uma decisão já tomada. Os partícipes são induzidos de forma sutil ou não a adquirir um comportamento de manada. Isso pode ser perigoso para a organização quando, meio que a contragosto, as pessoas embarcam numa canoa furada. Agem-se assim porque o chefe faz uma propaganda maravilhosa da tal canoa. Por esse motivo ninguém se arrisca a contrariar o comandante. Pensam antes de tudo na manutenção dos seus empregos, mesmo que todos venham a afundar. Quantas e quantas pessoas ficam caladas em reuniões ao ouvirem verdadeiros descalabros! Afinal, ninguém em sã consciência vai colocar o pescoço na guilhotina nem se tornar alvo da arrogância daqueles que se acham donos da verdade.
Um evento de grande repercussão que ilustra muito bem a dificuldade de fazer valer a racionalidade é contado pelo Professor nova-iorquino Dan Ariely (HSM 86). “Quando o presidente Bush decidiu invadir o Iraque, reuniu seu gabinete, expôs o que pensava e perguntou a opinião de cada integrante. Ponha-se no lugar da terceira pessoa da roda: seu chefe acaba de dizer que quer invadir o Iraque e dois membros do gabinete disseram que estão de acordo. Não é provável que você se manifeste contrariamente”. Pode-se assim deduzir que administrar o consenso é mais difícil do que administrar o conflito; requer habilidades superiores e percepção aguçada para extrair a opinião sincera das pessoas.
Se for conduzida de modo saudável, os resultados de uma reunião podem ser extremamente benéficos para a organização. Ressalte-se que é importante manter uma postura autêntica não somente em reuniões, mas em todas as interações que ocorrem no ambiente de trabalho. Dessa forma, o potencial criativo e colaborativo das pessoas dá lugar às práticas demagógicas institucionalizadas, que só servem para aprisionar a organização nos porões da mediocridade.
Obviamente que não é nada simples fazer essa transição. Antes de tudo, é preciso coragem e desprendimento da alta gerência. O caminho pode está no desenvolvimento e implantação de uma política sustentada num código de ética e de conduta profissional que conquiste a confiança de todo mundo. É preciso convencer as pessoas de que elas não perderão o emprego se derem sua contribuição para a melhoria dos processos.
@ucara
Publicado no Jornal do Commercio AM 31/05/2011
Artigos publicados
Fato corriqueiro é a prática de reuniões para tratar de assuntos relevantes, como por exemplo, a busca de solução de impasses quando todas as alternativas se mostram ruins. Há empresas que são viciadas em exaustivas e improdutivas reuniões, as quais são muitas vezes comandadas pelo chefe maior. De modo geral, os trabalhos são iniciados pela abordagem dos itens da pauta, donde ponto a ponto os assuntos vão sendo discutidos e analisados por diversos pontos de vista. Dessa forma espera-se que a matéria seja estratificada ao ponto de permitir a eliminação das possibilidades de uma decisão errada. Ledo engano. Infelizmente, a lógica racional é um ente arisco e volátil que só existe no terreno conceitual. A verdade é que somos criaturas impulsivas, parciais e egoístas. Ou seja, a nossa lógica é envolvida por outros sentimentos numa espécie de fagocitose. Daí, o risco da “análise dos diversos pontos de vista” não ser feita com sinceridade.
De modo subliminar, o que acontece nas reuniões é a imposição ao grupo de uma decisão já tomada. Os partícipes são induzidos de forma sutil ou não a adquirir um comportamento de manada. Isso pode ser perigoso para a organização quando, meio que a contragosto, as pessoas embarcam numa canoa furada. Agem-se assim porque o chefe faz uma propaganda maravilhosa da tal canoa. Por esse motivo ninguém se arrisca a contrariar o comandante. Pensam antes de tudo na manutenção dos seus empregos, mesmo que todos venham a afundar. Quantas e quantas pessoas ficam caladas em reuniões ao ouvirem verdadeiros descalabros! Afinal, ninguém em sã consciência vai colocar o pescoço na guilhotina nem se tornar alvo da arrogância daqueles que se acham donos da verdade.
Um evento de grande repercussão que ilustra muito bem a dificuldade de fazer valer a racionalidade é contado pelo Professor nova-iorquino Dan Ariely (HSM 86). “Quando o presidente Bush decidiu invadir o Iraque, reuniu seu gabinete, expôs o que pensava e perguntou a opinião de cada integrante. Ponha-se no lugar da terceira pessoa da roda: seu chefe acaba de dizer que quer invadir o Iraque e dois membros do gabinete disseram que estão de acordo. Não é provável que você se manifeste contrariamente”. Pode-se assim deduzir que administrar o consenso é mais difícil do que administrar o conflito; requer habilidades superiores e percepção aguçada para extrair a opinião sincera das pessoas.
Se for conduzida de modo saudável, os resultados de uma reunião podem ser extremamente benéficos para a organização. Ressalte-se que é importante manter uma postura autêntica não somente em reuniões, mas em todas as interações que ocorrem no ambiente de trabalho. Dessa forma, o potencial criativo e colaborativo das pessoas dá lugar às práticas demagógicas institucionalizadas, que só servem para aprisionar a organização nos porões da mediocridade.
Obviamente que não é nada simples fazer essa transição. Antes de tudo, é preciso coragem e desprendimento da alta gerência. O caminho pode está no desenvolvimento e implantação de uma política sustentada num código de ética e de conduta profissional que conquiste a confiança de todo mundo. É preciso convencer as pessoas de que elas não perderão o emprego se derem sua contribuição para a melhoria dos processos.
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paradoxos administrativos
Sou Contador e Professor do Ensino Superior. Sou apaixonado pela desconstrução das interpretações do mundo.
Esse blog é dedicado aos meus artigos publicados no Jornal do Commercio e na Revista Editor Fiscal.
INTELIGÊNCIA FISCAL INTERNA
Reginaldo de Oliveira
Publicado na Revista Editor Fiscal AM junho 2011
Artigos publicados
O mundo de hoje é digital. O Fisco sabe muito bem disso e sorrateiramente trabalha a característica intrínseca desses novos tempos, que é o fator rastreabilidade. Estamos cada vez mais conectados numa rede que se assemelha ao sistema neural do cérebro humano. Departamentos altamente especializados do governo vêm desenvolvendo estudos para criar mecanismos de infiltração insidiosa nessa imensa estrutura de compartilhamento de informações que as relações empresariais produzem diariamente. E não se engane quem acredita que o volume monumental de dados gerados possa inviabilizar um projeto de tamanha envergadura. Tecnologia para isso existe. Dinheiro, o governo tem muito. Pessoal especializado está sendo providenciado. Essa quimera tem nome: Inteligência Fiscal.
O Protocolo ICMS N° 66/2009 dispõe sobre a instituição do Sistema de Inteligência Fiscal (SIF) e intercâmbio de informações entre as unidades da Federação, tecnicamente denominadas Unidades de Inteligência Fiscal dos Estados (UnIF). O projeto é baseado na mútua cooperação técnica e intercâmbio de informações no interesse das atividades de inteligência fiscal, tudo pautado numa doutrina orquestrada pela Receita Federal do Brasil. O texto da lei parece um manual de detetive, o qual trabalha conceitos metafísicos de interpretação e avaliação de situações complexas, envolvendo elementos psicológicos e cognitivos. Isso sem falar na utilização dos mais avançados recursos de tecnologia da informação. Resumindo, parece que o Fisco está na vanguarda tecnológica quando o assunto é inteligência fiscal. Na retaguarda estão as organizações que ano após ano permaneceram inertes enquanto o Fisco construía sua teia.
A área tributária das corporações, antes considerada operacional, passou a ter um caráter estratégico. Escriturar nota fiscal e calcular imposto é agora atividade secundária. Atualmente, os assuntos fisco-tributários ocupam espaço substancial nos processos decisórios da alta direção das organizações empresariais por conta da crescente complexidade das obrigações que o governo não para de impingir aos contribuintes. Análises de entidades especializadas demonstram que 90% das empresas possuem algum tipo de pendência junto ao Fisco. Boa parte dessas irregularidades é consequência da falta de estrutura adequada de controle dos processos internos, o que impacta diretamente o fluxo de caixa e planos de investimento. Tais fatores negativos são mais críticos para quem está em processo de licitação.
O planejamento estratégico deve ser alinhado a uma política de inteligência fiscal interna, para que, assim, a empresa não permita que o Fisco conheça suas operações melhor que ela própria. Portanto, é preciso investir pesado na qualificação de empregados, em serviços especializados de consultoria e especialmente numa estrutura de auditoria que procure adotar procedimentos semelhantes ao dos fiscais de renda. Outro ponto importante é a ampliação do conhecimento fiscal através da integração inteligente de informações entre departamentos e unidades da empresa, chegando inclusive ao compartilhamento de conhecimento da legislação tributária com os fornecedores.
É importante sair do gerúndio e partir para a prática efetiva de inteligência fiscal interna. Ou seja, intensificar o controle dos documentos que circulam na empresa e manter um estreito relacionamento com o Contador, que deverá apresentar periodicamente à alta direção um relatório que descreva ocorrências fiscais passadas e faça um esboço das perspectivas fiscais futuras. Além disso, é preciso conhecer em profundidade o sistema de informática utilizado nas operações fiscais; formatos, estruturas, linguagem, padronização, arquivamento, consistência, segurança de dados etc. Importantíssimo também são os procedimentos de produção, utilização e guarda de documentos – o Arquivo Morto não poderá mais ser tratado como depósito de entulhos diversos.
Será necessário desenvolver e implementar uma política de Gestão de Risco cuja operacionalização deverá envolver a todos e todos deverão contribuir com seus pontos de vista. Importantíssimo também é ficar sintonizado com os dispositivos legais tributários mais suscetíveis a mudanças. Empresas que desenvolveram procedimentos inteligentes de controle fiscal acabaram descobrindo que pagavam impostos em excesso.
Foi-se o tempo que a principal ferramenta de trabalho do fiscal de renda era papel e calculadora. Ele evoluiu. E você?
Publicado na Revista Editor Fiscal AM junho 2011
Artigos publicados
O mundo de hoje é digital. O Fisco sabe muito bem disso e sorrateiramente trabalha a característica intrínseca desses novos tempos, que é o fator rastreabilidade. Estamos cada vez mais conectados numa rede que se assemelha ao sistema neural do cérebro humano. Departamentos altamente especializados do governo vêm desenvolvendo estudos para criar mecanismos de infiltração insidiosa nessa imensa estrutura de compartilhamento de informações que as relações empresariais produzem diariamente. E não se engane quem acredita que o volume monumental de dados gerados possa inviabilizar um projeto de tamanha envergadura. Tecnologia para isso existe. Dinheiro, o governo tem muito. Pessoal especializado está sendo providenciado. Essa quimera tem nome: Inteligência Fiscal.
O Protocolo ICMS N° 66/2009 dispõe sobre a instituição do Sistema de Inteligência Fiscal (SIF) e intercâmbio de informações entre as unidades da Federação, tecnicamente denominadas Unidades de Inteligência Fiscal dos Estados (UnIF). O projeto é baseado na mútua cooperação técnica e intercâmbio de informações no interesse das atividades de inteligência fiscal, tudo pautado numa doutrina orquestrada pela Receita Federal do Brasil. O texto da lei parece um manual de detetive, o qual trabalha conceitos metafísicos de interpretação e avaliação de situações complexas, envolvendo elementos psicológicos e cognitivos. Isso sem falar na utilização dos mais avançados recursos de tecnologia da informação. Resumindo, parece que o Fisco está na vanguarda tecnológica quando o assunto é inteligência fiscal. Na retaguarda estão as organizações que ano após ano permaneceram inertes enquanto o Fisco construía sua teia.
A área tributária das corporações, antes considerada operacional, passou a ter um caráter estratégico. Escriturar nota fiscal e calcular imposto é agora atividade secundária. Atualmente, os assuntos fisco-tributários ocupam espaço substancial nos processos decisórios da alta direção das organizações empresariais por conta da crescente complexidade das obrigações que o governo não para de impingir aos contribuintes. Análises de entidades especializadas demonstram que 90% das empresas possuem algum tipo de pendência junto ao Fisco. Boa parte dessas irregularidades é consequência da falta de estrutura adequada de controle dos processos internos, o que impacta diretamente o fluxo de caixa e planos de investimento. Tais fatores negativos são mais críticos para quem está em processo de licitação.
O planejamento estratégico deve ser alinhado a uma política de inteligência fiscal interna, para que, assim, a empresa não permita que o Fisco conheça suas operações melhor que ela própria. Portanto, é preciso investir pesado na qualificação de empregados, em serviços especializados de consultoria e especialmente numa estrutura de auditoria que procure adotar procedimentos semelhantes ao dos fiscais de renda. Outro ponto importante é a ampliação do conhecimento fiscal através da integração inteligente de informações entre departamentos e unidades da empresa, chegando inclusive ao compartilhamento de conhecimento da legislação tributária com os fornecedores.
É importante sair do gerúndio e partir para a prática efetiva de inteligência fiscal interna. Ou seja, intensificar o controle dos documentos que circulam na empresa e manter um estreito relacionamento com o Contador, que deverá apresentar periodicamente à alta direção um relatório que descreva ocorrências fiscais passadas e faça um esboço das perspectivas fiscais futuras. Além disso, é preciso conhecer em profundidade o sistema de informática utilizado nas operações fiscais; formatos, estruturas, linguagem, padronização, arquivamento, consistência, segurança de dados etc. Importantíssimo também são os procedimentos de produção, utilização e guarda de documentos – o Arquivo Morto não poderá mais ser tratado como depósito de entulhos diversos.
Será necessário desenvolver e implementar uma política de Gestão de Risco cuja operacionalização deverá envolver a todos e todos deverão contribuir com seus pontos de vista. Importantíssimo também é ficar sintonizado com os dispositivos legais tributários mais suscetíveis a mudanças. Empresas que desenvolveram procedimentos inteligentes de controle fiscal acabaram descobrindo que pagavam impostos em excesso.
Foi-se o tempo que a principal ferramenta de trabalho do fiscal de renda era papel e calculadora. Ele evoluiu. E você?
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inteligência fiscal,
SPED
Sou Contador e Professor do Ensino Superior. Sou apaixonado pela desconstrução das interpretações do mundo.
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terça-feira, 24 de maio de 2011
O DESABAFO DA PROFESSORA
Reginaldo de Oliveira
reginaldo@reginaldo.cnt.br
Publicado no Jornal do Commercio AM 24/05/2011
Artigos publicados
Pode-se afirmar que o dia 10 de maio de 2011 é um marco histórico. Nessa data a Professora Amanda Gurgel de Freitas proferiu o mais lúcido e mais corajoso discurso em defesa do nosso depauperado sistema educacional. O alvo era a Secretária de Educação e um grupo de parlamentares em uma audiência pública na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte. Ela começou sua fala com a exibição do seu contracheque de 930 reais; comentou que esse valor não era suficiente nem para pagar a indumentária que as autoridades presentes utilizavam para frequentar aquela casa. O que se seguiu foi um bombardeio de poderosos argumentos que demoliram o palavreado falacioso, tão utilizado por políticos demagógicos que costumam culpar o professor pelo estado calamitoso da escola pública. Brilhantemente, essa heroína brasileira deixou as autoridades caladas e atônitas diante das verdades que foram obrigadas a engolir.
Apesar do conteúdo denso e impactante da exposição da Professora Amanda, não houve de imediato nenhuma repercussão sobre esse fato inusitado. Nada foi publicado na mídia local; não houve sequer uma notinha nos “releases” oficiais da própria Assembléia, entidade promotora do evento. Suspeitamente, a imprensa preferiu se calar para não expor as vísceras apodrecidas do sistema educacional potiguar. A salvação ocorreu graças a santa internet, redentora dos sem-acesso-à-verdade, pessoas obrigadas a consumir informações pasteurizadas pela mídia oficial. Por isso é que somente após uma semana o acontecimento foi amplamente noticiado por conta da explosão no Youtube e nas redes sociais.
A mídia, que antes se calou, agora está explorando exaustivamente o acontecido; estão tentando tornar a imagem da professora mais importante do que a causa que a transformou numa celebridade instantânea. Mesmo assim, o clamor em defesa da educação está se proliferando na internet em escala nunca antes vista na história desse país. Tendo ultrapassado um milhão de visualizações, o vídeo histórico é um despertador barulhento que está apavorando uns e acordando outros. O efeito positivo é ilustrado pelo despertar das consciências que se sentiram estimuladas a promover uma imensa corrente de protestos através de manifestações que pipocam na internet. O efeito negativo pesará sobre as autoridades (in)competentes, as quais serão obrigadas a mudar urgentemente seus caquéticos discursos. Para esse tipo de gente, o tal vídeo é simplesmente um pesadelo apavorante.
Esse fantástico episódio apresenta-se como uma grande lição de cidadania. Mostra tacitamente o poder do cidadão, que habitualmente se comporta como um boi manso e inconsciente da sua força. A própria Amanda Gurgel disse não entender toda essa repercussão, visto que simplesmente descreveu a rotina vivenciada por alunos e educadores. Talvez o grande mérito dessa cidadã esteja na forma como tratou do assunto: com propriedade, com tranquilidade, com assertividade, com inteligência e principalmente com muita coragem. Se tivesse se descabelado, gritado ou insultado os presentes à audiência ela seria dada como louca e esquecida pouco depois. Mas não. Ela demonstrou a eloquência daqueles que são eleitos para defender o povo e não o fazem. Os deputados presente deveriam morrer de vergonha, se é que isso seja possível para esse tipo de gente.
reginaldo@reginaldo.cnt.br
Publicado no Jornal do Commercio AM 24/05/2011
Artigos publicados
Pode-se afirmar que o dia 10 de maio de 2011 é um marco histórico. Nessa data a Professora Amanda Gurgel de Freitas proferiu o mais lúcido e mais corajoso discurso em defesa do nosso depauperado sistema educacional. O alvo era a Secretária de Educação e um grupo de parlamentares em uma audiência pública na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte. Ela começou sua fala com a exibição do seu contracheque de 930 reais; comentou que esse valor não era suficiente nem para pagar a indumentária que as autoridades presentes utilizavam para frequentar aquela casa. O que se seguiu foi um bombardeio de poderosos argumentos que demoliram o palavreado falacioso, tão utilizado por políticos demagógicos que costumam culpar o professor pelo estado calamitoso da escola pública. Brilhantemente, essa heroína brasileira deixou as autoridades caladas e atônitas diante das verdades que foram obrigadas a engolir.
Apesar do conteúdo denso e impactante da exposição da Professora Amanda, não houve de imediato nenhuma repercussão sobre esse fato inusitado. Nada foi publicado na mídia local; não houve sequer uma notinha nos “releases” oficiais da própria Assembléia, entidade promotora do evento. Suspeitamente, a imprensa preferiu se calar para não expor as vísceras apodrecidas do sistema educacional potiguar. A salvação ocorreu graças a santa internet, redentora dos sem-acesso-à-verdade, pessoas obrigadas a consumir informações pasteurizadas pela mídia oficial. Por isso é que somente após uma semana o acontecimento foi amplamente noticiado por conta da explosão no Youtube e nas redes sociais.
A mídia, que antes se calou, agora está explorando exaustivamente o acontecido; estão tentando tornar a imagem da professora mais importante do que a causa que a transformou numa celebridade instantânea. Mesmo assim, o clamor em defesa da educação está se proliferando na internet em escala nunca antes vista na história desse país. Tendo ultrapassado um milhão de visualizações, o vídeo histórico é um despertador barulhento que está apavorando uns e acordando outros. O efeito positivo é ilustrado pelo despertar das consciências que se sentiram estimuladas a promover uma imensa corrente de protestos através de manifestações que pipocam na internet. O efeito negativo pesará sobre as autoridades (in)competentes, as quais serão obrigadas a mudar urgentemente seus caquéticos discursos. Para esse tipo de gente, o tal vídeo é simplesmente um pesadelo apavorante.
Esse fantástico episódio apresenta-se como uma grande lição de cidadania. Mostra tacitamente o poder do cidadão, que habitualmente se comporta como um boi manso e inconsciente da sua força. A própria Amanda Gurgel disse não entender toda essa repercussão, visto que simplesmente descreveu a rotina vivenciada por alunos e educadores. Talvez o grande mérito dessa cidadã esteja na forma como tratou do assunto: com propriedade, com tranquilidade, com assertividade, com inteligência e principalmente com muita coragem. Se tivesse se descabelado, gritado ou insultado os presentes à audiência ela seria dada como louca e esquecida pouco depois. Mas não. Ela demonstrou a eloquência daqueles que são eleitos para defender o povo e não o fazem. Os deputados presente deveriam morrer de vergonha, se é que isso seja possível para esse tipo de gente.
Sou Contador e Professor do Ensino Superior. Sou apaixonado pela desconstrução das interpretações do mundo.
Esse blog é dedicado aos meus artigos publicados no Jornal do Commercio e na Revista Editor Fiscal.
terça-feira, 17 de maio de 2011
PODEMOS REVOLUCIONAR A EDUCAÇÃO
Reginaldo de Oliveira
reginaldo@reginaldo.cnt.br
Publicado no Jornal do Commercio AM 17/05/2011
Artigos publicados
O intelectual marxista Leon Trotski afirmou que quando o cidadão apático desperta e daí por diante começa a participar ativamente da administração do país, logo adquire consciência do imenso poder que está em suas mãos; poder de fazer acontecer, poder de desarticular as putrefatas estruturas que oprimem os desamparados, poder de mudar o destino da nação. Há no site www.reginaldo.cnt.br/1968 um fantástico relato que ilustra muito bem essas questões. Era maio de 1968 na França, quando a reação de Daniel Cohn-Bendit à provocação do ministro da juventude culminou na expulsão desse aluno da universidade de Nanterre. Seus colegas reagiram em protesto acendendo assim o estopim que deflagrou a mais ampla revolução popular da história moderna, o consagrado MAIO DE 68.
Nessa época, a França vivia um momento de grande prosperidade econômica onde o Estado e a elite burguesa acreditava piamente que o tempo das revoluções populares tinha ficado lá no passado. Mal sabiam eles que por baixo da aparente calmaria da classe trabalhadora havia um crescente descontentamento que fermentava e se proliferava por todos os segmentos da sociedade. Os dirigentes achavam que a população estava mais preocupada com a manutenção dos seus empregos. Acreditavam que o povo era incapaz de se organizar, de lutar pelos seus direitos. E assim, com o poder das massas fragmentado era fácil neutralizar uma ou outra ação de rebeldia. Mas quando a nação inteira de trabalhadores tomou as ruas no mais fantástico e subversivo levante popular, o governo foi obrigado a desfiar um rol de concessões e por muito pouco o poder republicano não desabou de vez. Tanto que o então presidente Charles de Gaulle, pronto para abandonar o país, disse certa vez: “O jogo acabou. Em poucos dias os comunistas estarão no poder”.
Os fatos acima ilustram com propriedade as consequências das ações populares organizadas. É fato sabido de todos que existe uma onda de descontentamento que se estende de norte a sul do nosso país. Tal descontentamento é protagonizado pela classe docente que, desprezada por décadas pelo poder público, resolveu finalmente despertar e assim exigir respeito da sociedade. As ações ainda são muito tímidas e demonstram a grande fragilidade de qualquer movimento: a falta de articulação organizada. De qualquer forma é melhor do que a apatia vigente em décadas passadas. O professor se tornou mais consciente do seu papel na construção da nação e agora se encaminha para o centro do palco social. Também há uma grande mobilização da mídia em torno do assunto educação. Mas ainda falta muito por fazer.
O princípio da cidadania encabeça a nossa carta magna, demonstrando assim a extrema importância da participação ativa do cidadão na administração do país e envolvimento nas coisas públicas. Isso significa sair do acanhamento e mostrar para o mundo que os bonitões lá do topo da pirâmide social foram construídos pelo professor. De nada adianta criar secretarias entupidas de apadrinhados políticos para desenvolver projetos de melhoria da qualidade da educação. De nada adianta constituir ONGs voltadas para projetos educacionais, que muitas vezes só servem para encher os bolsos dos seus dirigentes. De nada adianta criar metodologias mirabolantes e esquecer de estabelecer um plano sério de carreira para o professor, de remunerar dignamente a atividade em sala de aula e as atividades de planejamento e correção de provas. Resumindo, respeitar o Educador. Tudo que for desenvolvido, tudo que for planejado será transmitido ao aluno pelo professor. Não é o secretário de educação que dá aula. Os alunos não querem saber de intelectuais e burocratas que criam teorias educacionais mirabolantes. Eles querem saber se o professor é capaz de lhe preparar para a vida pessoal e profissional. É isso.
Então, professores, o momento é mais do que favorável para revolucionar a nossa tão esmolambada Educação. Vamos livrá-la dos farrapos e vestí-la com roupas novas. Dispomos de uma espetacular ferramenta, que são os BLOGs da internet. Vamos usá-los então. Se cada professor se dedicar a expor suas idéias num BLOG, criar grupos de discussão, trocar experiências, criar BLOGS voltados para grupos de estudos, BLOGS de alunos, BLOGS de funcionários das secretarias etc., poderemos formar uma rede de conexões infinitas. Não nos preocupemos em escrever bonito. O importante não é a forma, e sim o conteúdo. Miremos no MAIO DE 68. Podemos sim, revolucionar a educação desse nosso Brasil.
reginaldo@reginaldo.cnt.br
Publicado no Jornal do Commercio AM 17/05/2011
Artigos publicados
O intelectual marxista Leon Trotski afirmou que quando o cidadão apático desperta e daí por diante começa a participar ativamente da administração do país, logo adquire consciência do imenso poder que está em suas mãos; poder de fazer acontecer, poder de desarticular as putrefatas estruturas que oprimem os desamparados, poder de mudar o destino da nação. Há no site www.reginaldo.cnt.br/1968 um fantástico relato que ilustra muito bem essas questões. Era maio de 1968 na França, quando a reação de Daniel Cohn-Bendit à provocação do ministro da juventude culminou na expulsão desse aluno da universidade de Nanterre. Seus colegas reagiram em protesto acendendo assim o estopim que deflagrou a mais ampla revolução popular da história moderna, o consagrado MAIO DE 68.
Nessa época, a França vivia um momento de grande prosperidade econômica onde o Estado e a elite burguesa acreditava piamente que o tempo das revoluções populares tinha ficado lá no passado. Mal sabiam eles que por baixo da aparente calmaria da classe trabalhadora havia um crescente descontentamento que fermentava e se proliferava por todos os segmentos da sociedade. Os dirigentes achavam que a população estava mais preocupada com a manutenção dos seus empregos. Acreditavam que o povo era incapaz de se organizar, de lutar pelos seus direitos. E assim, com o poder das massas fragmentado era fácil neutralizar uma ou outra ação de rebeldia. Mas quando a nação inteira de trabalhadores tomou as ruas no mais fantástico e subversivo levante popular, o governo foi obrigado a desfiar um rol de concessões e por muito pouco o poder republicano não desabou de vez. Tanto que o então presidente Charles de Gaulle, pronto para abandonar o país, disse certa vez: “O jogo acabou. Em poucos dias os comunistas estarão no poder”.
Os fatos acima ilustram com propriedade as consequências das ações populares organizadas. É fato sabido de todos que existe uma onda de descontentamento que se estende de norte a sul do nosso país. Tal descontentamento é protagonizado pela classe docente que, desprezada por décadas pelo poder público, resolveu finalmente despertar e assim exigir respeito da sociedade. As ações ainda são muito tímidas e demonstram a grande fragilidade de qualquer movimento: a falta de articulação organizada. De qualquer forma é melhor do que a apatia vigente em décadas passadas. O professor se tornou mais consciente do seu papel na construção da nação e agora se encaminha para o centro do palco social. Também há uma grande mobilização da mídia em torno do assunto educação. Mas ainda falta muito por fazer.
O princípio da cidadania encabeça a nossa carta magna, demonstrando assim a extrema importância da participação ativa do cidadão na administração do país e envolvimento nas coisas públicas. Isso significa sair do acanhamento e mostrar para o mundo que os bonitões lá do topo da pirâmide social foram construídos pelo professor. De nada adianta criar secretarias entupidas de apadrinhados políticos para desenvolver projetos de melhoria da qualidade da educação. De nada adianta constituir ONGs voltadas para projetos educacionais, que muitas vezes só servem para encher os bolsos dos seus dirigentes. De nada adianta criar metodologias mirabolantes e esquecer de estabelecer um plano sério de carreira para o professor, de remunerar dignamente a atividade em sala de aula e as atividades de planejamento e correção de provas. Resumindo, respeitar o Educador. Tudo que for desenvolvido, tudo que for planejado será transmitido ao aluno pelo professor. Não é o secretário de educação que dá aula. Os alunos não querem saber de intelectuais e burocratas que criam teorias educacionais mirabolantes. Eles querem saber se o professor é capaz de lhe preparar para a vida pessoal e profissional. É isso.
Então, professores, o momento é mais do que favorável para revolucionar a nossa tão esmolambada Educação. Vamos livrá-la dos farrapos e vestí-la com roupas novas. Dispomos de uma espetacular ferramenta, que são os BLOGs da internet. Vamos usá-los então. Se cada professor se dedicar a expor suas idéias num BLOG, criar grupos de discussão, trocar experiências, criar BLOGS voltados para grupos de estudos, BLOGS de alunos, BLOGS de funcionários das secretarias etc., poderemos formar uma rede de conexões infinitas. Não nos preocupemos em escrever bonito. O importante não é a forma, e sim o conteúdo. Miremos no MAIO DE 68. Podemos sim, revolucionar a educação desse nosso Brasil.
Sou Contador e Professor do Ensino Superior. Sou apaixonado pela desconstrução das interpretações do mundo.
Esse blog é dedicado aos meus artigos publicados no Jornal do Commercio e na Revista Editor Fiscal.
terça-feira, 10 de maio de 2011
DIGNIDADE AO PROFESSOR
Reginaldo de Oliveira
reginaldo@reginaldo.cnt.br Publicado no Jornal do Commercio Manaus/AM 10/05/2011
Artigos publicados
De que matéria-prima é feita uma nação? Monteiro Lobato disse que uma nação se faz com homens e livros. Um agricultor habilidoso separa as melhores espigas para semente. Dessa forma, ele trabalha com o intuito de aprimorar constantemente a qualidade da sua colheita. Providencialmente, Finlândia e Coréia do Sul fazem algo semelhante no seu processo educacional, onde os melhores alunos são convidados a ingressar na docência. Não é à toa que esses países ostentam altíssimos níveis de desenvolvimento científico e tecnológico. Daí, que ano após ano repetem a façanha de mostrar ao mundo a razão da sua grandiosidade, tal qual seja, o seu material humano.
A ululância candente do óbvio salta aos olhos e mesmo assim aturamos uma série de subterfúgios, teorias e infindáveis debates que mais parecem aliterações cacofônicas (um cachorro correndo atrás do próprio rabo). Trocando em miúdos, em vez de muita gente se debruçar em exaustivas discussões filosóficas acerca da melhoria da qualidade educacional, esse pessoal deveria simplesmente planejar formas de conferir dignidade ao Educador oferecendo-lhe uma carreira promissora e bem remunerada. O problema é que muitos buscam uma fórmula algorítmica que produza alunos brilhantes a partir de professores medianos.
O sucesso de alguns países no campo educacional parece não nos servir de modelo a ser seguido. O foco dessas nações avançadas é uma liturgia em torno da figura emblemática do professor – sentimento compartilhado por toda a sociedade. No Brasil, o professor é despido dessa aura divina, atuando apenas como um apagado figurante no teatro social, sendo que muitas vezes é esquecido nos bastidores da vida. Mesmo assim, alardeiam-se nos vários segmentos da mídia as nossas intenções de ingresso no grupo dos países do primeiro mundo. Certamente, faremos história se conquistarmos essa proeza à revelia da valorização do professor.
É impressionante como o gigantismo da máquina estatal derrama rios de dinheiro no poço sem fundo da burocracia, da ineficiência, do fisiologismo, dos esquemas diversos, da corrupção etc. E mesmo assim não sobra verba para oferecer uma remuneração decente ao professor. O governo dispõe de caixa para pagar dez mil reais a um assessor parlamentar e não pode pagar mais que um salário mínimo para muitos professores dos rincões desse nosso Brasil. O tal assessor pode até ser analfabeto, mas o professor deve reunir uma infinidade de qualificações que lhe permita forjar a massa crítica que acaba por fim definindo a face da nação brasileira. Tal realidade é algo que angustia e revolta.
Atualmente, um clima de desilusão permeia a mente de muitos alunos em relação à carreira de professor, onde acompanham diariamente as agruras da vida dos seus mestres. Por isso ambicionam profissões menos sacrificantes e mais rentáveis. Isso acontece até mesmo nos cursos de pedagogia – uma tragédia para as próximas gerações. Outro aspecto curioso a se considerar é que os alunos egressos dos cursos de pedagogia são majoritariamente oriundos das classes sociais menos abastadas, pessoas de difíceis condições sociais que escolheram um curso mais simples e mais barato – uma antítese à prática da Finlândia e da Coréia. Por isso é que o futuro professor já começa desmotivado com o que lhe espera depois de formado. Somente aqueles com forte espírito messiânico conseguem angariar entusiasmo para abraçar resignadamente a nobre causa da educação. Assim, há que se pensar na sorte dos alunos quanto ao tipo de professor que terão em sala de aula, se os engajados ou os conformados.
Que tipo de cidadão será constituído por um professor despreparado e mal remunerado? Assusta-nos o fato de que quanto mais nova a criança, pior a qualidade do ensino. Sem base, o aluno segue descompensado através das várias etapas da sua escolaridade. É fato recorrente nas salas de aula a presença de alunos absolutamente deslocados por falta de conhecimento que deveriam ter obtido nas séries anteriores. As mensalidades mais altas das escolas particulares de referência estão justamente no complexo processo de formação educacional da criança bem novinha. Mas isso é privilégio de uma classe social muito restrita, cujos filhos irão morar no exterior assim que estiverem prontos para a vida.
reginaldo@reginaldo.cnt.br Publicado no Jornal do Commercio Manaus/AM 10/05/2011
Artigos publicados
De que matéria-prima é feita uma nação? Monteiro Lobato disse que uma nação se faz com homens e livros. Um agricultor habilidoso separa as melhores espigas para semente. Dessa forma, ele trabalha com o intuito de aprimorar constantemente a qualidade da sua colheita. Providencialmente, Finlândia e Coréia do Sul fazem algo semelhante no seu processo educacional, onde os melhores alunos são convidados a ingressar na docência. Não é à toa que esses países ostentam altíssimos níveis de desenvolvimento científico e tecnológico. Daí, que ano após ano repetem a façanha de mostrar ao mundo a razão da sua grandiosidade, tal qual seja, o seu material humano.
A ululância candente do óbvio salta aos olhos e mesmo assim aturamos uma série de subterfúgios, teorias e infindáveis debates que mais parecem aliterações cacofônicas (um cachorro correndo atrás do próprio rabo). Trocando em miúdos, em vez de muita gente se debruçar em exaustivas discussões filosóficas acerca da melhoria da qualidade educacional, esse pessoal deveria simplesmente planejar formas de conferir dignidade ao Educador oferecendo-lhe uma carreira promissora e bem remunerada. O problema é que muitos buscam uma fórmula algorítmica que produza alunos brilhantes a partir de professores medianos.
O sucesso de alguns países no campo educacional parece não nos servir de modelo a ser seguido. O foco dessas nações avançadas é uma liturgia em torno da figura emblemática do professor – sentimento compartilhado por toda a sociedade. No Brasil, o professor é despido dessa aura divina, atuando apenas como um apagado figurante no teatro social, sendo que muitas vezes é esquecido nos bastidores da vida. Mesmo assim, alardeiam-se nos vários segmentos da mídia as nossas intenções de ingresso no grupo dos países do primeiro mundo. Certamente, faremos história se conquistarmos essa proeza à revelia da valorização do professor.
É impressionante como o gigantismo da máquina estatal derrama rios de dinheiro no poço sem fundo da burocracia, da ineficiência, do fisiologismo, dos esquemas diversos, da corrupção etc. E mesmo assim não sobra verba para oferecer uma remuneração decente ao professor. O governo dispõe de caixa para pagar dez mil reais a um assessor parlamentar e não pode pagar mais que um salário mínimo para muitos professores dos rincões desse nosso Brasil. O tal assessor pode até ser analfabeto, mas o professor deve reunir uma infinidade de qualificações que lhe permita forjar a massa crítica que acaba por fim definindo a face da nação brasileira. Tal realidade é algo que angustia e revolta.
Atualmente, um clima de desilusão permeia a mente de muitos alunos em relação à carreira de professor, onde acompanham diariamente as agruras da vida dos seus mestres. Por isso ambicionam profissões menos sacrificantes e mais rentáveis. Isso acontece até mesmo nos cursos de pedagogia – uma tragédia para as próximas gerações. Outro aspecto curioso a se considerar é que os alunos egressos dos cursos de pedagogia são majoritariamente oriundos das classes sociais menos abastadas, pessoas de difíceis condições sociais que escolheram um curso mais simples e mais barato – uma antítese à prática da Finlândia e da Coréia. Por isso é que o futuro professor já começa desmotivado com o que lhe espera depois de formado. Somente aqueles com forte espírito messiânico conseguem angariar entusiasmo para abraçar resignadamente a nobre causa da educação. Assim, há que se pensar na sorte dos alunos quanto ao tipo de professor que terão em sala de aula, se os engajados ou os conformados.
Que tipo de cidadão será constituído por um professor despreparado e mal remunerado? Assusta-nos o fato de que quanto mais nova a criança, pior a qualidade do ensino. Sem base, o aluno segue descompensado através das várias etapas da sua escolaridade. É fato recorrente nas salas de aula a presença de alunos absolutamente deslocados por falta de conhecimento que deveriam ter obtido nas séries anteriores. As mensalidades mais altas das escolas particulares de referência estão justamente no complexo processo de formação educacional da criança bem novinha. Mas isso é privilégio de uma classe social muito restrita, cujos filhos irão morar no exterior assim que estiverem prontos para a vida.
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cidadania,
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educação
Sou Contador e Professor do Ensino Superior. Sou apaixonado pela desconstrução das interpretações do mundo.
Esse blog é dedicado aos meus artigos publicados no Jornal do Commercio e na Revista Editor Fiscal.
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