sexta-feira, 22 de junho de 2018

Minha colaboração para o A Crítica

Zona Franca de Manaus concentra apenas 10% do total da renúncia fiscal da União

Governo Federal é responsável pela maior parte da receita tributária que deixa de arrecadar para atender interesse políticos, conforme estudo de economista21/06/2018 às 08:07


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terça-feira, 19 de junho de 2018

O GRANDE TEATRO NORMATIVO



Reginaldo de Oliveira
Publicado no Jornal do Commercio  dia  19 / 6 / 2018 - A 335

O emblemático e majestoso teatro Kabuki é um expoente da cultura japonesa, que, pelo seu primor artístico e performático adquiriu fama internacional. Tanta beleza e refinamento encobre um histórico de polêmicas que floresce atrás de cortinas escuras. De início, atrizes representavam papéis tanto masculinos quanto femininos em encenações demasiado eróticas. Tanta provocação da libido masculina acabou por gerar um comércio de prostituição. Por isso, o antigo governo shogun determinou que os papéis fossem interpretados somente por rapazes, que, tempos depois se rederam ao mercado sexual. Foi então que uma nova modificação substituiu os jovens atores por homens mais velhos. O tempo passou, os rigores morais se afrouxaram, mas a essência pecaminosa do Kabuki se mantém firme e forte nos bastidores.

Tempos atrás, a Petrobras contratou a empresa alemã SAP para informatizar todos os seus processos operacionais. Após um longo período de intenso trabalho, os melhores profissionais de TI do mundo conseguiram transportar todos os processos para o sistema R3, com exceção dos controles fiscais. Os mais capacitados técnicos americanos e europeus ficaram malucos com a nossa legislação tributária quando tentaram converter a estrutura normativa para a lógica computacional. Esse pessoal fracassou pelo simples fato de não haver lógica no sistema tributário brasileiro. Por fim, a empresa brasileira Sonda IT desenvolveu o software pw.SATI, como interface de informações fiscais ao sistema R3/SAP.

Nossa estrutura normativa é um grande teatro Kabuki, que, oficialmente, se apresenta ao público bem vestido e esteticamente formalizado, mas que, nos bastidores, se desenrola um festival de ignomínias ensandecidas. A tortuosidade é tão coesa e entrelaçada que não deixa margem para nenhum tipo de conserto. Prova maior dessa natureza depravada, está nas acintosas deturpações taxativas ou nas desastradas decisões do STF que só pioram o já deteriorado ambiente legal. Ou seja, quanto mais se mexe, mais fede.

Vivenciamos uma conduta divergente entre teoria e prática, de modo que uma coisa se mantém afastada da outra. É possível que a nossa cultura subversiva tenha brotado no período colonial, como fator de resistência ao explorador português. Ao longo dos séculos, desenvolvemos fortes instintos repulsivos à sanha arrecadatória da metrópole europeia. Preferimos sempre nos esconder ou camuflar nossos ganhos patrimoniais em vez de exigir ordem e racionalidade do sistema tributário. Na verdade, fervilha no peito do colonizado a lei da vantagem e do jeitinho. Trocando em miúdos, todo mundo persiste nas soluções individuais que transforma o discurso coletivo num mero teatro demagógico. Assim acontece na política como também nas entidades de classe. O governo tem ciência dessa visão estreita e por essa razão alimenta uma estrutura normativa colossal e doentia. Só agora, o brasileiro está se dando conta do lamaçal em que está metido. Por isso é que as pessoas físicas estão fugindo para o Canadá e as pessoas jurídicas levando seu capital para o Paraguai. Muita gente quer estar longe daqui quando a venezuelização engolir o país inteiro.

Ao que tudo indica, o famoso jeitinho vem perdendo força. Mesmo assim, continuamos insistindo numa vida dupla: No palco, atores bem compostos, mas nos bastidores a perversão reina soberana. O profissional sorridente diz para o cliente que com recibo o serviço é mais caro. Folha de pagamento integralmente declarada ao INSS é coisa raríssima nas empresas. Venda sem nota fiscal acontece por todo canto da cidade. A gorjeta do guarda de trânsito é sagrada e imutável. Esquemas mirabolantes envolvendo renúncias fiscais se desenrolam nos gabinetes fazendários. A propina do auditor fiscal tem agendamento certo e hora marcada em todas as empresas desse país. A praga da corrupção é tão ostensiva e tão gritante que pulsa vigorosamente na cara dos agentes públicos.

Pois é. A podridão cerca a nossa casa, exalando uma catinga sufocante. Fechamos as janelas e depois borrifamos perfume pelos cômodos tentando imaginar um mundo fantasioso. Isso acontece porque o brasileiro não tem coragem de chamar os vizinhos para se unir num mutirão de limpeza. Os corruptos e os safados agradecem, uma vez que se alimentam da putrefata lama burocrática. Curta Doutor imposto no Facebook.







terça-feira, 12 de junho de 2018

IMPERIOSA ANÁLISE FISCO CONTÁBIL



Reginaldo de Oliveira
Publicado no Jornal do Commercio  dia  12 / 6 / 2018 - A 334

De modo geral, o diretor ou sócio duma empresa conserva o hábito de acompanhar todas as etapas de qualquer obra de pequeno ou de grande porte que tenha encomendado a uma construtora. Esse comportamento é absolutamente natural porque envolve questões de significativo impacto patrimonial. Além de fazer o acompanhamento, o diretor está sempre buscando informações detalhadas sem se importar com o fato de não ter cursado engenharia civil. Por outro lado, o responsável pela obra trata desses questionamentos como parte do seu trabalho. Curiosamente, tal modus operandi não se aplica a questões de cunho fisco contábeis. Pelo menos, na maioria das empresas.

A Controladoria do empreendimento fabril Laminit preparava mensalmente um relatório minucioso das operações que, posteriormente, era digerido pelo seu diretor Paulo Scandian. A análise das informações consumia uns três dias de imersão total no dito relatório. O diretor ia esmiuçando os dados e ao mesmo tempo disparando e-mails para os responsáveis de vários setores. Fato subsequente, era reservado um dia inteiro para apresentação dos números, onde todos os participantes já deveriam estar com as justificativas e respostas na ponta da língua. Esse ritual corporativo conferia ao chefe maior um absoluto controle do negócio; nada escapava do seu olhar de lince. Por isso, todo o corpo administrativo e operacional era cuidadoso no cumprimento das suas tarefas. Tarefas essas, que eram transformadas em dados estatísticos por sofisticados instrumentos de análise gerencial.

O diretor da rede comercial Somaza exige que cada nota fiscal de compra seja apresentada a ele com uma memória de cálculo anexada. Por se tratar de peças de veículos, o ICMS substituição tributária é cobrado pelo fornecedor das mercadorias ou pela Sefaz. Daí, a importância da conferência. Vez por outra, os funcionários são confrontados por desafios analíticos envolvendo dados enigmáticos. Isso acontece devido a variados e incomuns arranjos matemáticos que os fornecedores constroem para atender a legislação da ZFM. Muitas vezes, o que ocorre, é erro de aplicação normativa. Essa prática diligente da Somaza já livrou a empresa de muitas encrencas e também de muitos prejuízos fisco tributários.

Tais lições nos dizem que o diretor precisa compreender e monitorar as operações fisco contábeis que se desenvolvem na sua empresa. Afinal de contas, o que está em jogo é a saúde do negócio. Mesmo porque, uma bobeada, e lá se vão milhões de reais pelo ralo. Claro, obvio, a capacitação precede a compreensão. Isso se traduz em estudos da matéria em questão – é preciso saber o mínimo necessário para discutir assuntos relevantes com o Contador. Mesmo assim, o que se observa em vários ambientes corporativos é a total desconexão da alta gerência com a sua assessoria fisco contábil, onde guias de recolhimento tributário são aprovadas às escuras ou relatórios contábeis são engavetados sem passar por nenhuma análise gerencial.

É de salutar importância que o Administrador solicite do Contador uma apresentação mensal de todas as operações do seu negócio. A apresentação deve ser feita de modo protocolar e ritualístico; em local apropriado e com informações projetadas via slides PowerPoint. A reunião precisa contar com a presença de funcionários graduados, justamente para conferir legitimidade ao evento. O empresário que fizer isso pela primeira vez irá descobrir uma infinidade de desajustes operacionais, além de prováveis inconsistências nas apurações de tributos. Mesmo que a empresa seja pequena, é importante que se verifique, ao menos, o cumprimento de obrigações normativas.

Essencial, mesmo, é que a alta gerência busque os meios necessários para se manter informada de tudo que possa comprometer o patrimônio da empresa. Isso só será possível se o administrador tiver conhecimentos necessários para questionar tecnicamente os dados que lhe são apresentados.





quarta-feira, 6 de junho de 2018

Faísca na boca do tanque tributário



Reginaldo de Oliveira
Publicado no Jornal do Commercio  dia  5 / 6 / 2018 - A 333

A paralisação dos caminhoneiros acabou por jogar lenha na fogueira tributária. Em meio ao fervilhante rebuliço provocado pelo desabastecimento, muita gente se posicionou contra a subvenção governamental que pôs fim ao movimento grevista. Os tais “especialistas” reclamavam da absurda redução do Pis/Cofins e também queixavam-se do impacto na arrecadação de impostos que financiam serviços públicos essenciais. O tom do palavreado transmitido no discurso pró-governo reforçava a ideia de absoluta normalidade da escarnecedora regressividade brasileira. Todo esse pessoal se comportava como assessores do presidente da república. Mesmo assim, as explosões de postagens nas mídias sociais rasgaram o verbo contra o extorsivo modelo de taxação que abocanha metade do salário (líquido) do trabalhador.

Parece que os caminhoneiros riscaram uma faísca na boca no tanque tributário, desencadeando assim uma onda de questionamentos difícil de conter. Apesar da relevante importância na manutenção dos serviços públicos, o brasileiro comum não está engolindo uma taxação de 100%. O cidadão que batalha arduamente de sol a sol não se conforma com o fato de pagar um tanque cheio e depois sair do posto com somente meio tanque. Ou seja, tem algo de podre no reino da Dinamarca. E o povo tá certo na sua desconfiança, porque a coisa toda é muito, muito, muiiito fedorenta.

O Brasil é um país controlado pelas elites aristocráticas que transferem todo o fardo tributário para as costas dos mais pobres. O mecanismo central dessa engenharia macabra está no ultra super intrincado sistema normativo. A legislação tributária foi meticulosamente desenhada para fomentar o espírito de esperteza que tão bem caracteriza o jeitinho brasileiro. Isto é, tudo é muito extenso e obscuramente detalhado de modo que a objetividade se perde no meio do caminho interpretativo. Tal modelo difuso confere aos poderosos uma infinidade de meios para não pagarem o mínimo razoável de impostos. Some-se a isso, a ultra proliferada e amplificada política de incentivos fiscais que beneficia justamente os gigantescos conglomerados econômicos. E para fechar com chave de ouro, a Procuradoria da República luta para cobrar dos grandes contribuintes, o montante de trilhões de reais declarados e não pagos. Fora tudo isso, ainda assistimos de camarote ao espetaculoso perdão oficial de centenas de bilhões de reais das dívidas tributárias, também dos grandes contribuintes. O poço da balbúrdia fiscal não tem fundo.

Pois é. Voltando ao problema da pesada carga tributária dos combustíveis (e de outros bens de consumo), o governo jamais encontrará solução dentro do atual modelo regressivo, como vem tentando fazer. O único caminho viável é o da progressividade. 60% da nossa arrecadação vêm do consumo e somente 16% vêm da renda. É exatamente o inverso do que ocorre nos Estados Unidos. E a maior parte dos tais 16% são pagos na fonte pelos assalariados.

Não bastasse a montanha de erros e de atropelos normativos, os impostos (ICMS/Pis/Cofins) são embutidos e entrelaçados no produto. Isso significa que a carga de penduricalhos taxativos é presumida e não conclusiva. Por esse motivo, não há clareza quanto à apropriação indevida dos tributos pagos pelo consumidor ao comerciante. O Fisco acaba por trabalhar em cima de presunções. Tal problema não ocorre na tributação do IPI porque uma coisa é separada da outra, o que bem caracteriza crime de apropriação indébita quando o valor cobrado do adquirente não é repassado ao erário.

Muitos estabelecimentos comerciais consideram somente o valor de aquisição, margem de lucratividade e custo operacional quando formam o preço de revenda das mercadorias. Esses empresários não injetam ICMS/Pis/Cofins no valor da mercadoria para não perder competitividade, uma vez que seus concorrentes praticam menor preço devido à sonegação. Os impostos embutidos impactam brutalmente o valor pago pelo consumidor. Por exemplo, uma mercadoria adquirida por R$ 100 que sofre adição de 25% a título de custeio operacional mais margem de lucro, é vendida por R$ 133. Mas se forem adicionados ICMS/Pis/Cofins o resultado final é de R$ 209. Ou seja, os impostos tornam o produto 57% mais caro. É bom lembrar que esse mesmo produto já pagou IPI quando foi fabricado.

O modelo de impostos “embutidos” ou “por dentro” fomenta as distorções de mercado e também favorece a concorrência desleal. É extremamente complicado para uma empresa cumprir a legislação fiscal quando toda a sua vizinhança sonega adoidado. Esse modelo é insustentável em termos de eficácia arrecadatória, uma vez que o Agente Fazendário não dispõe de instrumentos apropriados para fazer valer a normatização vigente. Por outro lado, é bom lembrar que essa ocultação da carga tributária existe, justamente, para enganar o povo.

O peso esmagador de impostos fica escondidinho no produto para evitar uma rebelião social. Dessa forma, o governo pode massacrar os pobres com carga acintosa e ao mesmo tempo proteger os ricos com isenções vergonhosas. A caracterização do crime tributário só acontecerá de fato quando for extinto o modelo de impostos “embutidos”. Ao mesmo tempo, se ICMS/Pis/Cofins tivessem o mesmo tratamento do IPI (cobrança por fora), o ente fazendário ganharia muito mais poder fiscalizatório. Por outro lado, o comerciante seria 200 vezes mais cauteloso em vista do risco de prisão. O gravíssimo problema da cobrança “POR FORA” está na evidenciação da carga tributária na etiqueta de preço colada no produto. Imagine a cena dantesca: O consumidor vai até o aparelho de vídeo game, analisa o produto e depois verifica o preço. Na etiqueta consta a informação de R$ 280, referente ao produto e mais R$ 720 de impostos, totalizando R$ 1.000. É claro que o consumidor iria quebrar o aparelho na cabeça do vendedor e depois botar fogo na loja. Onde já se viu pagar 257% de imposto? Mas é isso que acontece todos os dias. A carga “embutida” do vídeo game é de 72%, que num cálculo “por fora” resulta em 257%. Lembrando que existem produtos com carga de 900%. Tal modelo de cobrança “por dentro” é fraudulenta porque o imposto é apresentado ao consumidor travestido de produto. Nos Estados Unidos, a carga mais alta de imposto sobre consumo é de 9,45% (Tennessee). Nos EUA, toda cobrança é “POR FORA”. Isso cria uma relação de honestidade e clareza entre Fisco e Contribuinte.

Diante desse doentio cenário brasileiro, todos os fatores concorrem para que a atual balbúrdia tributária continue do mesmo jeito que está atualmente. O consumidor precisa se manter na mais absoluta ignorância; ele não pode se conscientizar do tamanho da facada que leva toda vez que compra alguma coisa, porque, no dia em que isso ocorrer, os governantes serão apedrejados em praça pública. Curta Doutor imposto no Facebook.








terça-feira, 29 de maio de 2018

CALCANHAR DE AQUILES (GESTÃO FISCAL)



Reginaldo de Oliveira
Publicado no Jornal do Commercio  dia  29 / 5 / 2018 - A 332

A ululante obviedade administrativa nos diz que os assuntos fiscais estão pautando todas as ações das empresas. Isto é, qualquer decisão de investimento, expansão, manutenção, parceria etc, precisa contemplar o elemento fiscal como fator determinante para o sucesso de qualquer empreitada. Não há mais espaço para aventuras nem para modelos gerenciais ultrapassados – o tempo do amadorismo acabou.

O Calcanhar de Aquiles dos eminentes e arrojados empreendedores está justamente na inobservância da gestão fiscal. E é justamente por essa fenda na armadura que a lança da Sefaz acerta o coração do guerreiro. Na prática, testemunhamos diariamente muitos acontecimentos lamentáveis envolvendo diligências, autuações, perseguições e perturbações fiscais de toda ordem que acabam matando negócios, empregos e geração de riqueza. Tantos e insistentes embaraços burocráticos sufocam o espírito do empresário, que acaba sendo obrigado a direcionar suas energias para essas questões secundárias, em vez de se dedicar ao mercado, concorrência e aprimoramento dos serviços oferecidos ao cliente. Tais dissabores podem ser drasticamente mitigados por força duma gestão fiscal eficiente.

Pra início de conversa, todo administrador precisa adquirir conhecimentos sobre o universo fisco tributário. Ou seja, o raciocínio estratégico deve ser atrelado a esses assuntos, visto que, do contrário, o produto final das ações administrativas chega ao mercado faltando um braço ou uma perna. E, de cadeira de rodas ou de muletas, ninguém consegue ir muito longe. Aqui, mesmo, na nossa cidade de Manaus, temos um grande e ostensivo exemplo de sucesso empresarial derivado de muito investimento na profissionalização de toda a estrutura administrativa. O presidente dessa grande rede de eletrodomésticos é um profundo conhecedor de tributos e de outros assuntos administrativos. Algumas pessoas podem acreditar que a burocratização dos controles internos gera um custo insustentável. Mas a loja mais admirada pelos manauaras prova o contrário. A cidade de Belém possui outro exemplo de altíssima eficiência empresarial, que é a Festa Color. O seu proprietário apostou muito alto em tecnologia de ponta e investimentos pesados na capacitação dos seus colaboradores para manter um nível de crescimento permanente. A principal chave desse sucesso está no pleno domínio contábil, tributário e do ERP Sankhya. Tanto o dono quanto sua contadora de 20 anos de casa, conhecem em profundidade, os minuciosos e complexos mecanismos do seu ERP, como também, estão antenados com a legislação contábil/tributária.

Portanto, não há como ignorar o óbvio. Não adianta insistir na ideia de enxergar o departamento fisco/contábil como um apêndice meio que desconectado do negócio. Esses centros operacionais são gêmeos xifópagos do departamento comercial.

O grave erro decisório está na manutenção de profissionais pouco qualificados em cargos estratégicos, sem investir na capacitação de pessoas esforçadas que cumprem suas tarefas utilizando ferramentas inadequadas ou ultrapassadas. Em outras palavras, o que prevalece em vários ambientes corporativos é um modelo de trabalho da época em que a empresa era bem pequena. Ou seja, o tempo passou, a estrutura se agigantou, mas o sistema de trabalho ficou lá, no passado. O resultado mais ostensivo desse descompasso está na chuva de multas fiscais ou nos rebuliços administrativos oriundos de tentativas ineficientes de cumprimento de obrigações acessórias. Na prática, o que se vê, é um monte de gente batendo cabeça sem produzir soluções consistentes ou eficazes.

Cabe, portanto, ao comandante do navio tomar as providências necessárias para não adernar ou até mesmo afundar de vez. A decisão é sempre administrativa. Ou seja, tudo deve partir do topo da pirâmide. Brilhantes iniciativas dos níveis gerenciais em nada adianta se as propostas não forem compreendidas nem apoiadas pela alta gestão. É bom lembrar que tudo deve ser feito em prol da saúde do negócio.

Parafraseando o genial Caetano Veloso, “E aquilo que nesse momento se revelará aos povos, surpreenderá a todos não por ser exótico, mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio”.





sábado, 26 de maio de 2018

Gasolina incendeia o debate tributário



Reginaldo de Oliveira
Publicado no Jornal do Commercio  dia  26 / 5 / 2018 - A 331

A onda de protestos contra os sucessivos aumentos dos combustíveis vem suscitando diversos questionamentos relacionados ao nosso sistema tributário. Ao longo de décadas, a Petrobras figurava sozinha no cadafalso como único alvo da ira dos condutores de veículos automotores. Cansada dos ataques, a empresa informou que fica com somente um terço do valor pago nas bombas; o restante é distribuído entre atacadista, varejista e, principalmente, o governo, que devora metade de tudo que é comercializado no país. A partir desse posicionamento da petrolífera, os canais midiáticos começaram a voltar os olhos para a extorsiva carga tributária que abocanha metade do tanque do carro. Ou seja, o cidadão começou a perceber que paga um tanque cheio, mas sai do posto com somente meio tanque. Isso, claro, cria uma profunda amargura no peito do motorista. A sensação é igualzinha a da pessoa que acabou de ser assaltada. A sensação é de perda patrimonial e de impotência diante dum sistema que arranca a boticão o dinheirinho suado do trabalhador. Essa história dantesca adquire contornos trágicos quando você lembra de que o imposto que acabou de pagar ao frentista vai alimentar um vasto e ultra capilarizado esquema de corrupção. Você, que pagou uma carga tributária de 100%, chega em casa e vê na televisão uma corja de políticos mergulhada numa vida de luxo e extravagâncias pagos com o dinheiro que você deixou no posto de gasolina. Você muda de canal e constata as imensas e colossais dificuldades jurídicas para encarcerar o político ladrão. Você observa todo o mundo jurídico formando uma blindagem titânica em torno da bandidagem para ninguém ser preso. Você conclui que o Brasil é um caso perdido.

Pois é. Tantos rebuliços tem forçado a mídia a promover investigações mais aprofundadas sobre as reivindicações dos caminhoneiros. Agora, o que se vê a todo momento, são gráficos ilustrativos sobre a composição de preços dos combustíveis. O motorista está finalmente separando mentalmente uma coisa da outra (produto do imposto). Essas indagações provocativas trazem à tona outros perturbadores questionamentos, tais quais: Eu já entreguei 27,5% do meu salário para o governo e depois entrego novamente metade do que sobra para o mesmo governo quando compro produtos para minha família. Resultado final: eu fico com somente um terço daquilo que meu patrão me paga. Por outro lado, o meu patrão paga para o dito governo um terço do meu salário na forma de encargos. É bom lembrar-se das infinitas taxas que perseguem o cidadão dia e noite. É bom lembrar que ainda tem IPVA, IPTU, impostos financeiros etc. São somente 92 tributos que pesam sobre a cabeça do brasileiro. Por isso é que somos tão empobrecidos. Por isso é que o brasileiro luta, luta e não constrói nada; acaba morando mal, comendo mal, vivendo mal etc. Tudo culpa da ineficiência estatal, dos impostos e da corrupção que devora metade da contribuição destinada ao erário.

Voltando ao polêmico debate sobre o preço dos combustíveis, o governo insiste que não pode reduzir a esmagadora carga tributária. Ao que parece, não há espaço para negociação. Mas há muito a ser discutido. O primeiro ataque deve ser direcionado à múltipla tributação sobre uma mesma base, onde um imposto acaba sendo base de outro. Segundo ponto: A Sefaz viola descaradamente o princípio da seletividade consagrado no artigo 155 parágrafo 2º da Constituição Federal e ratificado pelo artigo 12 do Regulamento do ICMS/AM, que diz que as mercadorias devem ser tributadas em função da sua essencialidade. Ou seja, carga menor para produtos essenciais e taxação maior para mercadorias supérfluas. No Amazonas, temos 18% de ICMS como alíquota padrão, 25% para produtos supérfluos e 12% para produtos essenciais. Na categoria de produtos supérfluos temos armas, munições, iates, joias, gasolina e álcool carburante. Na categoria de produtos essenciais temos veículos automotores. E na categoria de produtos sujeitos à alíquota padrão, temos a cesta básica. Como se vê, tá tudo errado no Amazonas. A gasolina não é um produto supérfluo e por isso mesmo deveria ser taxada a 18%. O alimento básico paga mais imposto do que uma BMW. Portanto, cabe aos segmentos organizados da sociedade agir conjuntamente para corrigir tantos disparates.





Entrevista A Crítica & Jornal do Commercio